“No Brasil, só há dois partidos: o de Tiradentes e o de Silvério dos Reis.” O aforismo do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, frequentemente evocado pelo almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, exprime uma convicção que orientou toda a sua trajetória. Ao longo de décadas, o engenheiro da Marinha dedicou-se a um projeto de país fundado na autonomia tecnológica e na afirmação da soberania nacional. O preço foi alto. Hoje, o homem que ajudou a colocar o Brasil no seleto grupo de nações capazes de enriquecer urânio, com tecnologia 100% nacional, ainda tenta desvencilhar-se do cerco judicial que tem enfrentado há mais de uma década. “Tenho 87 anos e tenho poucas esperanças de me libertar desses processos antes de partir, mas seria muito bom poder descansar sem esse peso”, diz.
O vendaval começou em 28 de julho de 2015, quando o engenheiro, como prefere ser chamado, foi preso pela “Operação Radioatividade”, deflagrada três meses após Dalton Avancini, presidente da Camargo Corrêa, celebrar um acordo de colaboração premiada com a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. Na ocasião, o executivo relatou que o processo licitatório para a retomada da construção de Angra 3 havia sido direcionado para que dois consórcios saíssem vencedores de dois lotes, ao custo de 3 bilhões de reais. O direcionamento, segundo o próprio delator, teria ocorrido para priorizar empresas com experiência anterior na construção de usinas nucleares. Avancini acrescentou que a empreiteira UTC teria convocado uma reunião às vésperas da assinatura dos contratos e nela foi comentado que haveria “compromissos” de pagamento de propina: 1% do valor seria destinado ao PMDB e aos diretores da Eletronuclear, entre eles Pinheiro, que ocupava a presidência da estatal responsável pela operação de Angra 1 e 2.















