Autoridades de Irã e Omã anunciaram nesta terça-feira negociações sobre a administração conjunta do Estreito de Ormuz, rota naval crucial para o mercado mundial de petróleo cujo bloqueio no conflito com os EUA desestabilizou a economia mundial. O anúncio ocorre um dia após Teerã e Washington apontarem avanços em negociações para encerrar em definitivo a guerra, e da passagem estratégica registrar o tráfego marítimo mais intenso desde o início da guerra na segunda-feira, quando ao menos 35 navios carregados cruzaram a rota. O governo americano rejeitou que vá aceitar qualquer tipo de cobrança para circulação de embarcações por Ormuz. A quantidade de navios que cruzaram Ormuz foi registrada pela plataforma de dados marítimos Kpler. Embora o número seja superior a todo o período de guerra, entre 1º de março e 14 de junho — quando menos de 10 navios carregados passaram pelo estreito — e que a média de 27 navios desde o anúncio do memorando de entendimento entre EUA e Irã, representa apenas cerca de um terço do anterior ao conflito, quando aproximadamente 120 navios transitavam diariamente. A administração da rota no longo prazo é motivo de divergência nas negociações entre Washington e Teerã. Os EUA e países do Golfo disseram que a rota deve ser considerada internacional, enquanto o Irã constituiu uma autoridade naval para gerir as passagens de navios. Em um comunicado conjunto nesta terça, Irã e Omã anunciaram que estudarão os "custos" da futura administração de Ormuz, destacando a "soberania sobre suas águas territoriais". "As duas partes concordaram em continuar seu diálogo sobre essa questão por meio de um grupo de trabalho conjunto (...) com o objetivo de chegar a um acordo sobre a futura administração da navegação no Estreito de Ormuz, sobre os serviços que serão prestados nesse contexto e sobre os custos associados, em conformidade com as normas internacionais", diz o comunicado, que também cita uma visita a Mascate de uma delegação iraniana liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, e pelo principal negociador do país, Mohammad Bagher Ghalibaf. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Albusaidi, declarou no X, após sua reunião com Araghchi e Ghalibaf, que eles reafirmaram "o compromisso com o direito internacional e com a passagem segura e livre de pedágios". Em um comentário divulgado pela agência estatal iraniana IRNA, Ghalibaf afirmou que "a administração do Estreito de Ormuz nunca mais será a mesma de antes da guerra". O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, desembarca em Abu Dhabi, em primeira parada de viagem pelo Golfo — Foto: Eric Lee/AFP Na semana passada, o Ministério das Relações Exteriores do Irã anunciou que o país passaria a cobrar o que denominou taxas de serviço marítimo para a travessia do estreito, que Teerã tenta distinguir de um pedágio — o que foi explicitamente vetado pelos EUA. Ghalibaf afirmou que essas taxas entrarão em vigor após o período de 60 dias previsto para negociações com os EUA. Em visita oficial a países do Golfo, destinada a prestar solidariedade a aliados atingidos pela retaliação iraniana à guerra iniciada por EUA e Israel, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que nenhum país terá permissão para cobrar pedágios ou taxas em Ormuz. Na primeira parada da viagem, em Abu Dhabi, Rubio pareceu endereçar contra a comunicação iraniana horas antes. — É uma via navegável internacional. Nenhum país tem permissão para cobrar pedágios ou taxas em uma via navegável internacional. Isso é direito internacional estabelecido — disse Rubio, que ainda tem escalas previstas em Kuwait e Bahrein, onde deve tratar sobre o andamento das negociações com o Irã. — Não acho que precisemos convencer ninguém por aqui disso. Acredito que todos os países desta região concordariam conosco. Moradores de Bandar Abbas, no sul do Irã, se banham nas águas do Estreito de Ormuz, com navios de carga ancorados ao fundo: reabertura da passagem é ponto central do acordo entre EUA e Irã — Foto: Amirhossein Khorgooei/ISNA/AFP O fechamento de Ormuz foi responsável pelo maior impacto global da guerra no Oriente Médio, com uma disparada do preço do petróleo provocada pelo corte abrupto da produção de todo o Golfo Pérsico dos mercados internacionais. O efeito econômico se tornou o maior fator de pressão sobre Trump, que teve que lidar com aliados e um público interno insatisfeitos com o barril de petróleo chegando a um patamar ao redor de US$ 100 dólares o barril. Embora a reabertura de Ormuz, acordada por Irã e EUA no memorando de entendimento mediado pelo Catar, tenha distensionado o mercado de petróleo, com o preço do barril voltando a casa dos US$ 70 a US$ 80 por barril, a incerteza sobre o futuro do estreito e sobre as negociações americano-iranianas ainda são um fator de instabilidade. O memorando fechado entre Irã e EUA estabelece que Teerã e Omã, que fazem fronteira com a rota, discutirão a "administração futura e os serviços marítimos" juntamente com outros países do Golfo. Antes do memorando, vários funcionários americanos criticaram Omã por considerar que o país planejava cobrar pedágios conjuntamente com o Irã. O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou "explodir" Mascate em caso de tentativa de controlar a via marítima. O governo de Teerã chegou a anunciar o fechamento de Ormuz na sexta-feira, em resposta a ataques de Israel contra o Líbano — algo que o regime dos aiatolás incluiu no memorando. Posteriormente, os dois países chegaram a um entendimento sobre mecanismos para interromper os confrontos e garantir a segurança do estreito. (Com AFP)