Na última semana, a pauta do homeschooling voltou aos holofotes da Câmara dos Deputados e das redes sociais após audiência realizada na Comissão de Educação em torno de propostas que pretendem regulamentar o ensino domiciliar no país. A pauta é legítima e pode ser debatida; o problema é que, como quase tudo o mais hoje em dia, ela não tem avançado com a seriedade e ponderação que o tema merece – afinal, estamos falando de crianças e consequências que perdurarão a vida inteira.
O presidente da comissão, deputado Nikolas Ferreira, concentrou atenções com comentários provocativos de que a família “é uma instituição criada por Deus” e que “a autoridade dos pais é anterior ao próprio Estado”. Declarações como estas, sem dúvida bem pensadas, têm alto valor atencional nas simulações de realidade que são as redes sociais e demais plataformas. Porém, têm pouco compromisso com a realidade factual.
Longe de ser uma entidade natural ou divina, a família nuclear patriarcal é um ponto fora da curva no conjunto das sociedades humanas, tendo se desenvolvido historicamente com – e através – do Estado. Sociedades sem Estado reais – estudadas há pelo menos um século por ciências como a antropologia e a arqueologia – têm, via de regra, organizações de parentesco bastante diversas da nossa, incluindo padrões de família extensa não-nuclear, parentesco classificatório (não-biológico), reconhecimento de linhagens maternas e abertura para trocas, alianças e incorporação de indivíduos de grupos diferentes.










