Três anos e meio após voltar ao Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terminará seu atual mandato sem conseguir cumprir uma das principais promessas na política externa: promover uma integração regional que recolocasse o país como protagonista. Além da ascensão de governos de direita na América do Sul, obstáculos internos, como a polarização política e restrições orçamentárias são apontados como fatores que impediram o avanço dessa agenda. Quando concorrer ao seu quarto mandato, em outubro, o petista poderá ser um dos únicos líderes de esquerda no poder na América do Sul. Um cenário que pode se consolidar amanhã, quando a Colômbia irá às urnas para eleger o substituto de Gustavo Petro, um dos últimos aliados de Lula na região. O favorito para substituí-lo é o direitista Abelardo de la Espriella, que ficou à frente do governista Iván Cepeda no primeiro turno. A composição regional é bem diferente da encontrada por Lula nos seus primeiros mandatos, quando houve uma ascensão de governos de esquerda na América do Sul. Ao reassumir a Presidência, em janeiro de 2023, o continente parecia viver uma nova onda progressista. Além do Brasil e da Colômbia, Chile, Argentina e Bolívia também eram comandados pela esquerda. Essa configuração fez com que o petista assumisse o terceiro mandato apostando na reconstrução de mecanismos regionais que haviam perdido força ao longo da década anterior. Em maio de 2023, Lula reuniu chefes de Estado em Brasília para discutir a revitalização da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), criada durante seus governos anteriores. A iniciativa, porém, não foi para frente. — Entendemos que a integração é essencial para fortalecimento da América Latina. Uma América do Sul forte, confiante e politicamente organizada amplia as possibilidades de afirmar no plano internacional uma verdadeira identidade latino-americana e caribenha — discursou Lula no encontro. Sem sucesso na tentativa de relançar a Unasul, Lula apostou suas fichas no retorno à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), bloco que também havia sido abandonado por Bolsonaro. A empreitada também teve pouco efeito prático. O último encontro, realizado no fim do ano passado na Colômbia, teve a participação de apenas cinco dos seus 33 integrantes. Mesmo Lula, que chegou a participar de um encontro preliminar da cúpula, abandonou a reunião antes de seu fim, deixando ao chanceler Mauro Vieira a incumbência de discursar em seu lugar durante o encontro. A mudança no mapa político latino-americano não apenas tornou mais difícil a integração defendida pelo governo brasileiro, mas também ajuda a moldar o ambiente político que Lula encontrará na campanha presidencial de 2026, marcada pelo avanço de pautas conservadoras em diversos países do continente. Para o diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Feliciano Guimarães, a política de integração regional do terceiro mandato de Lula permanece uma “tarefa inconclusa”. — O governo não teve sucesso na sua primeira iniciativa, que era relançar a Unasul. Conseguiu extrair dali o Consenso de Brasília, mas não um mecanismo institucional com capacidade efetiva de coordenar ações na região. Sobrou ao Brasil atuar principalmente na Celac, que é um fórum importante, mas de caráter consultivo, cuja origem tem mais a ver com a liderança mexicana do que exatamente brasileira. Mercosul é exceção Segundo Guimarães, a exceção foi o Mercosul. Mesmo diante da rivalidade política entre Lula e o argentino Javier Milei, o bloco conseguiu avançar na reta final das negociações do acordo com a União Europeia e ampliar tratativas comerciais com parceiros como Canadá e Associação Europeia de Livre Comércio (Efta, na sigla em inglês). Procurados, o Palácio do Planalto e o Itamaraty não comentaram. Especialistas avaliam que fatores internos também limitaram os avanços da agenda brasileira nos últimos anos. Para o professor Antônio Jorge Ramalho, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o cenário atual é resultado de uma combinação de dificuldades externas e domésticas. Segundo ele, além da fragmentação política na região e da mudança de orientação de governos vizinhos, o Brasil enfrenta restrições orçamentárias, polarização interna e dificuldades para mobilizar apoio político em torno de projetos de longo prazo. — Os esforços são meritórios. Os resultados, limitados. Para complicar tudo, os recursos são muito limitados, ao contrário do que ocorreu na primeira década deste século — afirmou Ramalho. Na avaliação de Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Lula retornou a uma região muito diferente daquela que ajudou a construir nos anos 2000. Ele aponta a volta de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, como um dos principais fatores por trás da nova configuração regional. — Quando Trump volta ao poder, as forças mais à direita ficam mais fortes e mais ativas. Países como Argentina e El Salvador passam a buscar alinhamento com os Estados Unidos e deixam de priorizar esforços cooperativos na América Latina. Aliança anti-Brasil O especialista vê uma tentativa do atual governo americano de reduzir a influência do Brasil na região, fortalecendo aliados da direita da América Latina. Na terça-feira, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, deixou a estratégia explícita ao citar o Brasil, ao lado de Cuba e Venezuela, como um país não “amigável”. — É incrível que, tirando Nicarágua, Cuba, Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e, claro, Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, até certo ponto, o atual governo da Colômbia também — pelo menos o presidente tem sido problemático — é uma região cheia de aliados e líderes amigáveis aos Estados Unidos — afirmou o chefe da diplomacia americana ao Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA. Para Paz, o retorno de Trump fortaleceu setores conservadores da América Latina e criou incentivos para que governos buscassem alinhamento direto com Washington. — Rubio trabalha ativamente para criar uma aliança anti-Brasil na América do Sul. Mas isso vem do Departamento de Estado, não necessariamente do governo americano como um todo.