Em meio ao avanço da direita na região, presidente defendeu diversificar parcerias e afirmou que "ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul" Em meio ao avanço de governos de direita e centro-direita na América do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta terça-feira (30), que os países do Mercosul evitem alinhamentos automáticos e escolhas excludentes e afirmou que “ninguém é dono do mundo e da América do Sul”. Durante a 68ª Cúpula do Mercosul, Lula afirmou ainda que a democracia voltou a ser ameaçada em todo o mundo e aproveitou para elogiar o Pix, que, segundo ele, é uma referência internacional em inclusão financeira e eficiência digital. “Ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses. Diversificar parcerias, ampliar cooperação e preservar autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação”, disse durante sua fala na Cúpula. O aceno ao Pix ocorre no momento em que o governo dos Estados Unidos ameaça aplicar uma nova taxa de 25% aos produtos brasileiros e cita o modelo de pagamento eletrônico como argumento por considerá-lo uma prática comercial desleal. Lula também reiterou que, embora o Mercosul nem sempre avance na tomada de decisão na velocidade desejada, o bloco permanece como o principal espaço institucional de uma região cada vez mais polarizada. “Projeto de integração sul americana deve ter acima de qualquer divergência ideológica”, defendeu. Nessa linha, Lula sugeriu ao Uruguai, que assume hoje a presidência rotativa do bloco, que o Mercosul se torne o embrião de um mecanismo sul-americano de enfrentamento a desastres naturais e de financiamento à adaptação climática. Neste contexto, citou os impactos que poderão ser provocados pelo fenômeno El Niño neste ano. Como outro exemplo da coesão do bloco, Lula afirmou que a cúpula dará mais um passo ao lançar negociações para uma parceria com o Japão. Segundo ele, o Mercosul pretende fazer o mesmo, em breve, com a China. Segundo ele, o protecionismo ressurge no mundo como uma resposta falaciosa à complexidade dos desequilíbrios macroeconômicos globais e defendeu que, na atual conjuntura, o Mercosul é uma “necessidade estratégica”. “Hoje nos confrontamos com uma região e um mundo profundamente transformados. Rivalidades crescem e unilateralismo ganham força. Guerras e conflitos aprofundam instabilidade global e elevam preços dos alimentos e energia”, comentou. Durante sua fala, o presidente disse também que o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado e classificou esse problema como um dos maiores desafios da região. “Nossa cooperação policial, judicial e financeira precisa atuar na mesma escala [do crime organizado]”, defendeu. Lula afirmou ainda que o bloco está pronto para lançar o Focem 2 (Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul), que contará com aumento da contribuição brasileira, por meio de aportes de US$ 100 milhões anuais ao longo de uma década. Segundo ele, a incorporação da Bolívia ao Focem também será um passo adicional para reduzir as assimetrias entre os países do bloco. Criado em 2004, o Focem foi o primeiro mecanismo solidário de financiamento próprio do Mercosul. Seu principal objetivo é reduzir as assimetrias regionais e financiar obras de infraestrutura, especialmente nas economias e regiões menos desenvolvidas. Ao fim de sua fala, o chefe do Executivo afirmou que o Mercosul continuará sendo uma prioridade para o Brasil e disse que disputará as próximas eleições para garantir que o país permaneça democrático. “Porque não é possível a gente imaginar irresponsáveis governando um país de 215 milhões de habitantes”, afirmou, sem fazer menção a adversários. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil