Em contraste com seus primeiros mandatos, presidente tem dado prioridade a acordos de livre-comércio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A solenidade de assinatura do acordo Mercosul-UE em Assunção, no Paraguai — Foto: Luis ROBAYO / AFP/17/01/2026 Não muito tempo atrás, a esquerda brasileira via o livre-comércio como uma agenda “neoliberal” e tratava acordos comerciais como tabu. O desenvolvimentismo arcaico que influencia o PT desde a fundação sempre se revestiu do manto protecionista que até hoje faz do Brasil uma das economias mais fechadas do mundo. A volta de Donald Trump à Casa Branca e seus sucessivos rompantes tarifários parecem, porém, ter começado a mudar essa mentalidade. Diante do protecionismo de sua nêmesis, a esquerda brasileira paradoxalmente tem aderido a princípios liberais e adotado como prioridade a abertura do Brasil a mercados externos. No novo discurso, a palavra empregada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva é “multilateralismo”, mas a essência é a queda de barreiras comerciais — a própria definição de liberalismo. A negociação com a União Europeia (UE) que se arrastava havia décadas foi finalmente concluída em janeiro. Em setembro passado, o Mercosul entrou em acordo com Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, integrantes do bloco conhecido pela sigla EFTA. É esperado para o fim do mês, durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, o início de negociações com o Japão, cujo objetivo é alcançar um eventual tratado de livre-comércio. Conversas com o Canadá estão em fase final. Embora impasses persistam, a expectativa é a conclusão de um acordo de livre-comércio nos próximos meses. Há reuniões marcadas com representantes de Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Indonésia, além do interesse expresso em avançar o diálogo à Coreia do Sul. Antes mesmo da eleição de Trump, o governo brasileiro já dava sinais de estar mais aberto. No fim de 2023, durante cúpula do Mercosul no Rio, foi criada uma área de livre-comércio com Cingapura, a primeira concluída desde 2011. O contraste com o primeiro e o segundo mandatos de Lula é notável. Entre 2003 e 2006, o Brasil assinou apenas um acordo (e somente de preferências tarifárias) com um país fora da América Latina, a Índia. De 2007 a 2010, o Mercosul só fechou negociações de livre-comércio com Israel e Egito, além de outra de menor escopo com África do Sul, Botsuana, Lesoto e Namíbia. Na época, nenhuma dessas economias tinha tamanho relevante, e apenas a israelense podia ser considerada rica. Felizmente, agora não parece haver restrição de dimensão e estágio de desenvolvimento dos parceiros comerciais. Com a barreira tarifária imposta por Trump, exportadores brasileiros com presença nos Estados Unidos foram forçados a encontrar novos mercados. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil registrou em 2025 recorde de vendas para 42 países. No novo contexto global, acordos preferenciais e de livre-comércio são cruciais para fortalecer as vendas externas. Ainda que tardia, a conversão de Lula à abertura comercial merece ser aplaudida.