Memorando de entendimento do republicano inclui temas como o programa nuclear iraniano, o alívio de sanções e o futuro de Ormuz, enquanto o do democrata se concentrava nas questões nucleares O presidente dos EUA, Barack Obama, e o presidente eleito, Donald Trump, chegam para a 58ª posse presidencial em Washington, DC, EUA, na sexta-feira, 20 de janeiro de 2017 — Foto: J. Scott Applewhite/Pool via Bloomberg O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem insistido que o acordo que fechou com o Irã é superior ao firmado pelo presidente democrata Barack Obama em 2015. Críticos de Trump, porém, afirmam que, até o momento, ele obteve muito menos e cedeu muito mais a Teerã. Veja, a seguir, como os dois acordos se comparam: O que cada acordo é e o que não é Os dois textos são muito diferentes. O “memorando de entendimento” assinado por Trump com o Irã não é um acordo final, mas um documento de uma página e meia, composto por 14 pontos, negociado intermitentemente ao longo de várias semanas. Ele deu início a um período de 60 dias de negociações para buscar um acordo abrangente que encerre a guerra de quase quatro meses, mas ainda há muitos obstáculos a superar em temas como o programa nuclear iraniano, o alívio de sanções e o futuro do Estreito de Ormuz. O pacto de Obama era um documento finalizado e detalhado, intitulado Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), com mais de 160 páginas. O texto era estritamente voltado a restringir as atividades nucleares do Irã, com metas rigorosas. Trump, que classificou o acordo da era Obama como “horrível”, retirou os EUA do pacto em 2018. A abordagem de Trump tem sido bilateral, entre Estados Unidos e Irã. Obama envolveu China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e a União Europeia em negociações que duraram cerca de dois anos. Programa nuclear Ambos os acordos incluem um compromisso formal do Irã de jamais buscar uma arma nuclear. Trump — que apontou a ameaça nuclear como a principal justificativa para entrar em guerra — tem insistido, de forma incorreta, que Teerã nunca havia assumido esse compromisso anteriormente. O acordo de Obama impôs limites rígidos aos esforços iranianos para produzir urânio apto para armas nucleares, com o objetivo de ampliar o chamado “tempo de ruptura”, ou seja, o período necessário para que o país conseguisse produzir uma bomba. O governo americano afirmou que Teerã cumpriu o acordo até a retirada dos EUA do JCPOA por Trump. O acordo provisório de Trump estabelece apenas um caminho geral para restringir as atividades nucleares iranianas, sem compromissos específicos por parte de Teerã para além da discussão sobre a questão nuclear durante a janela de 60 dias. O texto sugere a disposição do Irã em resolver a disputa sobre seu estoque de urânio enriquecido a níveis próximos aos necessários para a fabricação de armas, incluindo a possibilidade de diluir esse material em território iraniano sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), órgão de fiscalização nuclear da ONU, mas deixa essa decisão para um acordo final. O JCPOA previa um amplo regime internacional de inspeções, enquanto o memorando de entendimento não prevê a retomada desse processo no futuro. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian assina o Memorando de Entendimento com os EUA em Teerã , Irã, em 18 de junho de 2026 — Foto: Site da Presidência do Irã/WANA (Agência de Notícias da Ásia Ocidental)/Divulgação via REUTERS Sanções e ativos congelados Os dois acordos envolvem alívio de sanções e desbloqueio de ativos, algo que o Irã busca ainda mais intensamente agora para impulsionar sua economia debilitada, mas de maneiras muito diferentes. Obama flexibilizou algumas sanções logo no início, mas apenas depois da assinatura de um acordo abrangente, implementando novas medidas gradualmente à medida que o Irã cumpria etapas verificadas. O memorando de Trump antecipa parte desse alívio, incluindo autorizações imediatas dos Estados Unidos para que o Irã volte a exportar petróleo, enquanto deixa para negociações futuras um pacote definitivo. O documento também abre caminho para a liberação de bilhões de dólares em recursos congelados, embora não deixe claro quando isso poderá ocorrer. Outra cláusula prevê que os Estados Unidos e aliados do Oriente Médio criem um fundo de US$ 300 bilhões para o desenvolvimento econômico do Irã, mas é vaga sobre as condições e o cronograma. Isso gerou críticas de setores linha-dura em relação ao Irã dentro do próprio Partido Republicano, que acusam Trump de estar fazendo concessões excessivas. Trump criticou Obama durante anos pela devolução a Teerã de US$ 1,7 bilhão referentes a recursos de vendas de armas congelados desde 1981. Agora, porém, Trump, que já deixou clara sua aversão a comparações entre seu acordo e o de Obama, pode acabar proporcionando ao Irã um volume de recursos muitas vezes superior. Estreito de Ormuz O JCPOA tratava exclusivamente de questões nucleares, uma escolha deliberada do governo Obama, que avaliava que incluir outras preocupações regionais tornaria impossível alcançar um acordo final. Já o memorando de entendimento é o ponto de partida diplomático para encerrar permanentemente a guerra que Trump iniciou ao lado de Israel em 28 de fevereiro e que provocou ondas de choque na economia mundial. Por isso, um de seus principais pontos é um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, uma rota crítica para o transporte global de petróleo que o Irã fechou na prática. O Irã tem insistido em manter um papel de gestão sobre o estreito, algo que não possuía antes da guerra, e essa questão pode se tornar um ponto de atrito nas negociações. Embarcações no Estreito de Ormuz , vistas de Musandam, Omã, 18 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Stringer