Presidente dos EUA parece desconhecer o trauma da sociedade libanesa sobre a presença síria no país, afirma Guga Chacra em newsletter especial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Explosão provocada por ataque israelense na região de Marjayoun, no sul do Líbano, em 19 de junho de 2026, após o acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 05:13 Trump propõe Síria contra Hezbollah, mas ignora contexto histórico e militar Donald Trump propôs, de forma controversa, que a Síria combatesse o Hezbollah, sugerindo que os sírios poderiam ter mais sucesso que Israel. A proposta ignora o trauma libanês com a ocupação síria e a incapacidade militar da Síria diante do poderoso Hezbollah. Além disso, o Líbano não aceitaria tal intervenção. Especialistas sugerem que fortalecer o Exército libanês seria uma solução mais viável. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. Em viagem à Europa nesta semana, Donald Trump sugeriu que a Síria combatesse o Hezbollah. Segundo o presidente norte-americano, os sírios talvez tivessem mais sucesso do que os israelenses no combate ao grupo apoiado pelo Irã. Nesta newsletter, vou tentar explicar como é absurda essa proposta do líder dos EUA para tentar resolver o conflito entre os israelenses e a organização xiita libanesa. Atritos com Israel – A declaração de Trump foi dada em meio a uma crise nas relações entre os EUA e Israel. O memorando de entendimento assinado por norte-americanos e iranianos prevê um cessar-fogo que inclui também os combates no Líbano. Israel considera esse item inaceitável, porque vê o Hezbollah como uma ameaça à sua segurança. Já Trump prefere valorizar as negociações com o Irã para tentar resolver a questão nuclear iraniana. Na visão dele, a guerra dos israelenses contra o Hezbollah não pode ser um obstáculo. As regras – Conforme expliquei nesta semana, muito provavelmente Israel não se retirará do território libanês, tampouco o Hezbollah irá se desarmar. Apesar de não estar previsto no acordo, o mais provável é que os dois lados adotem novas regras de engajamento. Basicamente, Israel poderia atacar o Hezbollah somente no sul do Líbano e estaria impedido de realizar ataques a Beirute, por exemplo. Já o Hezbollah poderia atacar forças de ocupação israelenses, mas não o norte de Israel. Síria não quer – Mas, voltemos à absurda proposta de Trump de usar a Síria contra o Hezbollah. O primeiro impedimento seria a própria Síria. Afinal, o regime sírio não pretende lutar contra o Hezbollah neste momento. No passado, o grupo Hayet Tahrir al-Sham (HTS), que domina o poder em Damasco, travou batalhas contra o Hezbollah. Esses combates, no entanto, foram no contexto da Guerra da Síria. Agora, Ahmed al-Sharaa, que lidera o HTS e governa a Síria, está mais interessado em estabilizar o país, devastado por 13 anos de conflito. Não faz sentido cruzar a fronteira para lutar contra o Hezbollah, que o derrotou na Síria. Sem condições – Mesmo se quisesse, a Síria não teria condições de derrotar o grupo. O Hezbollah é uma milícia extremamente bem armada e atua em seu território. As forças sírias não seriam capazes de derrotá-lo. Obviamente, os sírios estão bem aquém de Israel militarmente, que conta com enorme poderio aéreo, informações de inteligência e experiência de combate. Mesmo assim, os israelenses não foram capazes de desarmar o Hezbollah. Líbano não quer – O governo libanês tampouco aceitaria que forças sírias entrassem no Líbano para lutar contra o Hezbollah. Trump parece desconhecer o trauma da sociedade libanesa em relação à presença síria no país. Os sírios ocuparam militarmente o Líbano por quase três décadas, dominando politicamente o país até 2005. Naquele ano, Rafik Hariri, que havia sido primeiro-ministro libanês e liderava a oposição, foi morto em atentado atribuído ao regime de Damasco. Centenas de milhares de libaneses saíram às ruas na chamada Revolução dos Cedros, que culminou na retirada síria. Radicais – A Síria não é mais governada pela família Assad, como na época da ocupação do Líbano. Mas isso não diminui o temor de uma intervenção síria. Além disso, Ahmed al-Sharaa tem um histórico jihadista e liderou o braço da al-Qaeda na Síria. Seria inaceitável para a sociedade libanesa, bem mais tolerante, e em especial para cristãos, xiitas e drusos. Mas, mesmo os sunitas libaneses ficariam cautelosos com a presença de milícias sírias ligadas ao HTS, que são de uma vertente radical do islamismo. Fortaleça o Líbano – A melhor alternativa para Donald Trump seria fortalecer o Exército libanês para que exerça a soberania sobre todo o território. Não há alternativa para desarmar o Hezbollah e será extremamente difícil em qualquer circunstância. Mas facilitaria se Israel se retirasse do sul do Líbano e as forças libanesas fossem mais fortes.
A bizarra proposta de Trump para usar a Síria contra o Hezbollah
Presidente dos EUA parece desconhecer o trauma da sociedade libanesa sobre a presença síria no país, afirma Guga Chacra em newsletter especial










