Sem participação do Hezbollah, tratativas acabam dando garantias a Israel para seguir ocupando o Líbano, afirma Guga Chacra em newsletter especial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Representantes do Líbano e de Israel assinam acordo em Washington, mediado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio — Foto: Saul Loeb/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/06/2026 - 04:37 Acordo entre Líbano e Israel sem Hezbollah gera tensão contínua As negociações entre Líbano e Israel, sem a participação do Hezbollah, resultaram em um acordo de 14 pontos mediado nos EUA, que prevê a retirada israelense do território libanês após o desarmamento do Hezbollah. No entanto, o grupo e outros atores no Líbano não reconhecem o pacto, considerando-o uma capitulação. A continuidade do conflito é provável, com a ocupação israelense mantida e o Hezbollah não desarmando. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. Os governos do Líbano e de Israel assinaram mais um acordo de 14 pontos em negociações em Washington na sexta-feira. Como não teve newsletter no fim de semana, escreverei sobre este tema agora, ainda que tenha havido mais uma escalada entre Estados Unidos e Irã. Desta vez, não se trata apenas de mais um suposto “cessar-fogo” para agradar Donald Trump, como nos encontros passados entre libaneses e israelenses. Vai além e busca estabelecer os termos para o futuro das relações entre os dois países. Caminho para a paz? – O acordo, na prática, prevê que Israel se retire do território libanês quando o Hezbollah se desarmar. O Líbano trabalharia nesse sentido, e os israelenses sairiam, progressivamente, de alguns pontos, passando o poder para as forças armadas libanesas. Os dois países também pretendem definir suas fronteiras, com o reconhecimento, no futuro, da soberania dos dois vizinhos. Na prática, trata-se de um mapa para a paz entre Israel e Líbano. Capitulação? – O problema é que o Hezbollah e outros atores importantes dentro do Líbano não reconhecem o acordo negociado pela administração do presidente Joseph Aoun e pelo premier Nawaf Salam com o governo de Benjamin Netanyahu. Avaliam que é uma capitulação de um governo fraco, que aceita negociar com um país que bombardeia e ocupa o seu próprio território, matando milhares de pessoas. Além disso, não leva em consideração os interesses de todos os grupos do mosaico de poder libanês. Opositores e defensores – Os opositores ao acordo dizem que o Hezbollah é o único que está lutando contra a ocupação israelense, enquanto o Exército teria, segundo eles, abandonado o sul do Líbano. Já os defensores do acordo afirmam que Israel sequer estaria dentro do território libanês se o Hezbollah não tivesse decidido lançar mísseis contra Israel em solidariedade ao regime de Teerã — a ação ocorreu depois de Israel e EUA bombardearem o Irã e assassinarem o líder supremo Ali Khamenei. Risco de novos confrontos – Independentemente de quem estiver certo, o Hezbollah não irá se desarmar. Na prática, isso implica que Israel continuará no sul do Líbano e terá um acordo com o próprio governo libanês dando esta garantia. Portanto, o conflito tende a prosseguir, diminuindo de intensidade apenas por pressão do Irã e dos EUA. Se as negociações entre norte-americanos e iranianos colapsarem e o conflito for retomado, pode ser também que os confrontos entre o Hezbollah e Israel voltem a escalar. Regras do jogo – A possibilidade mais provável, conforme já escrevi aqui, é de que o conflito entre Israel e o Hezbollah diminua de intensidade e fique confinado ao sul do Líbano. Basicamente, o Hezbollah não lançaria bombas contra o norte de Israel, mas atacaria forças de ocupação israelenses. Já Israel agiria contra o grupo no sul do Líbano, mas não em outras partes do território libanês. Seria algo similar às regras do jogo vigentes durante os anos 1990, quando Israel também ocupava a região, de onde saiu no ano 2000. Desarmamento e desocupação – O melhor cenário para o Líbano seria, obviamente, o desarmamento do Hezbollah e a retirada de Israel, com o Exército libanês mantendo o monopólio da força. Talvez o acordo de Washington não seja o melhor mecanismo para atingir este objetivo. Creio que tanto Israel quanto o Líbano perderam uma grande oportunidade de negociar ao longo de 2025, quando os israelenses não estavam dentro do território libanês e o Hezbollah estava enfraquecido pela derrota na guerra do ano anterior. Agora, a ocupação foi retomada, e o grupo está novamente empoderado.