Após avanços inéditos do governo libanês para reduzir o arsenal do grupo, a escalada regional fortaleceu a resistência da milícia e recolocou o país diante de um velho impasse Um homem escala escombros após um ataque aéreo israelense derrubar um prédio no centro de Beirute, Líbano, em 18 de março de 2026 — Foto: David Guttenfelder / The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/06/2026 - 12:50 Escalada de Conflitos Impede Desarmamento do Hezbollah no Líbano Os esforços do Líbano para desarmar o Hezbollah foram interrompidos pela escalada de conflitos entre EUA, Israel e Irã. O grupo retomou ataques contra Israel, complicando a retirada de armas. A resistência do Hezbollah, apoiada pelo Irã, e a intensificação da ofensiva israelense reforçam o impasse, colocando o Líbano novamente em crise política e militar. O desarmamento é crucial para a estabilidade regional, mas enfrenta grandes desafios. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No início deste ano, os líderes do Líbano pareciam se aproximar de um de seus objetivos mais difíceis: desarmar o Hezbollah, a poderosa milícia apoiada pelo Irã que há décadas opera como um Estado dentro do Estado. Mas esse esforço — cauteloso e gradual desde o começo — agora está paralisado. Após mais de um ano evitando se envolver diretamente nos combates, apesar dos ataques israelenses na fronteira, o Hezbollah voltou a desempenhar um papel central no conflito. Em março, após o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, o grupo retomou os ataques contra Israel em apoio a Teerã e matou vários soldados israelenses. Agora, o Líbano se vê preso em uma situação familiar. Israel intensificou sua campanha militar contra o Hezbollah, tornando ainda menos provável que o grupo aceite se desarmar. Ao mesmo tempo, o governo libanês, cauteloso diante da força persistente da organização e marcado pelas memórias da guerra civil, recuou da ideia de confiscar seu arsenal à força, apesar da pressão de países ocidentais. Nesta segunda-feira, o governo israelense anunciou planos para bombardear os subúrbios no sul de Beirute, enquanto o Hezbollah reivindicou novos ataques contra soldados e comunidades israelenses — um reflexo de como o cessar-fogo anunciado em abril pelo governo do presidente americano, Donald Trump, existe cada vez mais apenas no papel. Com centenas de milhares de pessoas deslocadas pelos combates e Israel ocupando partes do sul do Líbano, muitos libaneses temem que um confronto entre o governo e o Hezbollah aprofunde ainda mais a crise do país e reabra feridas antigas. — Qualquer processo coercitivo ou de confronto conduzido pelo Exército será complicado porque exigiria uma decisão sem consenso, algo que vai completamente contra a lógica da política libanesa — afirma Heiko Wimmen, diretor do programa para o Líbano da International Crisis Group. Outro obstáculo é o próprio Irã. Embora tenha sido enfraquecido por duas guerras contra Israel e os EUA em menos de um ano, o regime iraniano permanece firmemente no poder. Analistas afirmam que o Hezbollah dificilmente abrirá mão de suas armas enquanto a influência regional da República Islâmica e sua capacidade de projetar poder permanecerem intactas. — O Líbano terá de esperar por mudanças em Teerã antes de virar a página em relação ao desafio que o Hezbollah representa aos interesses nacionais libaneses — diz Lina Khatib, pesquisadora visitante da iniciativa para o Oriente Médio da Harvard Kennedy School. Janela de oportunidade A série de guerras no Oriente Médio iniciada após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 contra Israel enfraqueceu os aliados regionais do Irã, incluindo o Hezbollah, considerado o mais poderoso deles. Nos últimos três anos, Israel e o Hezbollah travaram duas guerras. Quando um cessar-fogo apoiado pelos EUA interrompeu o primeiro conflito, no fim de 2024, governos ocidentais e do Oriente Médio — incluindo o do Líbano — enxergaram uma rara oportunidade para finalmente avançar no desarmamento do grupo. O acordo previa que o Hezbollah entregaria gradualmente suas armas, especialmente ao sul do rio Litani, próximo à fronteira israelense, em troca do fim das operações militares de Israel em território libanês. A iniciativa ganhou impulso após a posse de um novo presidente e de um novo primeiro-ministro no Líbano, no início de 2025, ambos comprometidos em priorizar o desarmamento da organização. Em agosto, o gabinete do primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, encarregou as Forças Armadas de elaborar um plano para desmontar o arsenal do Hezbollah até o fim do ano. Quando o governo analisava o plano, em setembro, ministros alinhados ao Hezbollah abandonaram a reunião, repetindo o argumento frequente da organização de que seu desarmamento deixaria o Líbano vulnerável diante de Israel. Mesmo assim, o processo continuou. Autoridades israelenses e libanesas passaram a se reunir regularmente em uma base da ONU no sul do Líbano, com mediação dos EUA, para discutir o progresso do desarmamento. Em outubro, o Comando Central americano informou que o Exército libanês havia retirado quase 10 mil foguetes e cerca de 400 mísseis da região ao longo do ano anterior. Em janeiro, os militares anunciaram a conclusão da primeira fase da remoção de armas do Hezbollah da área entre o rio Litani e a fronteira israelense. Israel classificou a medida como “um começo encorajador”, embora “longe de ser suficiente”. Chance perdida Todo esse progresso foi interrompido em 28 de fevereiro, quando Israel e os EUA atacaram o Irã. Poucos dias depois, o Hezbollah voltou a disparar contra Israel, demonstrando que ainda possuía um arsenal significativo de foguetes e mísseis antitanque. Seus combatentes também passaram a utilizar novos drones explosivos, mais difíceis de interceptar. Israel respondeu com uma ofensiva que devastou o sul do Líbano, matou civis e ampliou seu controle sobre partes do território libanês. Mas a campanha fez pouco para enfraquecer a disposição do Hezbollah de manter suas armas. — Os israelenses ficaram surpresos. Os americanos ficaram surpresos. E o mundo inteiro ficou surpreso com a capacidade da resistência — declarou em maio o porta-voz do Hezbollah, Hajj Youssef al-Zein. O impasse deixou o governo libanês encurralado. Em março, as autoridades proibiram o Hezbollah de realizar atividades militares, mas a ordem teve pouco efeito prático. Desde então, cresce a pressão para que Beirute contenha o grupo de forma mais eficaz. Memórias da guerra civil Fundado em 1982, o Hezbollah construiu sua imagem como principal defensor do Líbano contra Israel e consolidou sua presença ao longo da fronteira sul. Seus líderes sustentam há décadas que o arsenal do grupo é essencial tanto para a defesa nacional quanto para preservar a influência política dos muçulmanos xiitas, uma das três principais comunidades religiosas do país e principal base de apoio da organização. Com o passar dos anos, o Hezbollah se tornou a força política e militar dominante no Líbano, frequentemente considerada mais poderosa do que as próprias Forças Armadas do país. Ainda assim, muitos libaneses passaram a rejeitar o envolvimento recorrente em guerras devastadoras desencadeadas pela organização. — O Hezbollah monopolizou a voz política da comunidade xiita e trata as críticas à milícia como uma questão sectária — ressalta Khatib. — Isso dificulta que o Estado libanês confronte o Hezbollah, mesmo depois de o governo ter considerado ilegais suas ações militares. Antes da guerra atual, os militares libaneses evitavam realizar operações em residências e edifícios no sul do país onde suspeitavam haver armas escondidas, segundo autoridades israelenses e um funcionário da ONU ouvido sob condição de anonimato. Especialistas afirmam que ações desse tipo poderiam aumentar as tensões ao reavivar as lembranças da traumática guerra civil libanesa, que durou 15 anos. Salam tem citado repetidamente os Acordos de Taif, que encerraram a guerra civil e previam o desarmamento das diversas milícias do país. — Estamos mais de 30 anos atrasados nessa questão — destacou o premier em entrevista recente. Outro entrave é a tentativa do governo de vincular o desarmamento do Hezbollah à retirada das tropas israelenses do sul do Líbano. — O governo libanês vai querer mostrar à população que está obtendo algo em troca caso decida tomar medidas concretas — afirma David Schenker, ex-alto funcionário do Departamento de Estado americano. Momento decisivo O desarmamento do Hezbollah está no centro das negociações mediadas pelos EUA entre Israel e o Líbano, um raro processo diplomático denunciado tanto pelo grupo quanto pelo Irã. Autoridades árabes e ocidentais, além de analistas da região, apresentaram diferentes propostas. Entre elas está a criação de uma comissão internacional independente, inspirada no processo de reconciliação da Irlanda do Norte, para supervisionar o desarmamento completo da organização. Em abril, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que os EUA trabalhavam para capacitar unidades “selecionadas” do Exército libanês a agir contra o Hezbollah “para que Israel não precise fazê-lo”. Outras propostas sugerem usar ajuda financeira internacional como instrumento de pressão para incentivar o governo libanês a avançar no processo. Enfrentar o Hezbollah exigiria uma ampla reformulação das Forças Armadas do Líbano, que sofrem com falta de efetivo, equipamentos e treinamento. Também não está claro quem financiaria esse esforço. Países do Golfo que poderiam apoiar a iniciativa enfrentam dificuldades decorrentes da guerra regional, e o Líbano ainda não implementou as reformas fiscais necessárias para acessar programas internacionais de assistência. Em maio, os EUA impuseram sanções a nove pessoas — incluindo integrantes das Forças Armadas e dos serviços de inteligência do Líbano — acusadas, entre outras coisas, de dificultar o desarmamento do Hezbollah. — O Líbano enfrenta um momento de verdade — diz Wimmen. — A forma como o país decidir lidar com a questão do desarmamento definirá o que virá a seguir.