A Câmara aprovou uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que transforma as igrejas em algo muito próximo de zonas francas tributárias, estendendo a imunidade a praticamente todas as compras de bens e serviços ligados ao seu funcionamento e às suas obras sociais.

Nos últimos anos, não faltaram vozes religiosas contra o Bolsa Família, mas, diante desse "Bolsa Igreja" travestido de liberdade religiosa, o que mais impressiona é o silêncio das igrejas protestantes históricas e da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

A ironia salta aos olhos. Pastores influentes e até bispos católicos já criticaram o Bolsa Família, acusando o programa de criar preguiçosos e desorganizar o mercado de trabalho. Agora, muitos dos mesmos setores que demonizam a transferência de renda para os mais pobres assistem, em silêncio, ao avanço de uma espécie de Bolsa Igreja: uma renúncia fiscal generosa, sem contrapartidas claras, destinada a instituições que já desfrutam de imunidade ampla sobre patrimônio, renda e serviços.

Quando essas instituições se calam diante de uma PEC que transfere tributo do CNPJ eclesiástico para o CPF de crentes e não crentes, o problema é a escolha deliberada de abandonar o padrão moral que elas próprias ensinaram.