Discussões sobre IA, segurança de dados, computação quântica e infraestrutura tecnológica mobilizam empresas e setor público Cleber Morais, diretor-geral da Amazon Web Services (AWS): Brasil é prioritário na oferta de processamento local — Foto: Divulgação A inteligência artificial foi onipresente no Rio Web Summit, mas outras macrotendências, como tensões geopolíticas, transição energética e soberania tecnológica também tiveram destaque na trilha de inovações corporativas. Uma das sessões especiais (masterclass) discutiu a estratégia da nuvem soberana brasileira a cargo do Serpro e da Dataprev. A iniciativa está permitindo que mais de 250 órgãos do executivo federal armazenem dados sensíveis com maior segurança. A proposta é baseada em três pilares: soberania dos dados, soberania operacional e soberania tecnológica. “Soberania tecnológica é o poder de um país determinar seu rumo com desenvolvimento e relativa autonomia. Um país que não possui capacidade de desenvolvimento tecnológico torna-se dependente da tecnologia criada por outros e não consegue gerar bem-estar para sua sociedade”, defendeu Luís Fernandes, secretário-executivo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que encerrou os debates da trilha de inovação corporativa. Para Leonardo Santos, fundador e presidente da empresa brasileira de IA e big data Semantix, há competências em que o Brasil não será líder, como nos modelos de IA já desenvolvidos. “Olhamos a construção de aplicações segmentadas com dados locais. O Brasil é referência no setor financeiro, haja vista a proporção das discussões em torno do Pix”, diz Santos. Cleber Morais, diretor-geral da Amazon Web Services (AWS), ressalta que o segmento financeiro brasileiro sempre foi agente de transformação tecnológica. “O Pix transformou a vida das pessoas. É uma inovação brasileira que a AWS ajudou a criar e não fere soberania de nenhum país”, diz. A AWS está no centro das discussões sobre soberania de dados por ter sido uma das escolhidas para fornecer a infraestrutura de nuvem para o Serpro ao lado de Huawei e Oracle. O contrato chamou a atenção do Tribunal de Contas da União (TCU), que recomendou ao Serpro alterações para eliminar a possibilidade de acesso a dados em cumprimento a decisões de autoridades estrangeiras. Morais diz que, há 15 anos, a AWS decidiu que o Brasil seria a oitava região para investir em processamento local, por meio de um cluster de data centers em São Paulo, de parceiros como Elea e Escala. Há cinco anos, passou a contar com data centers próprios. “Já investimos US$ 5,6 bilhões e ajudamos o crescimento de startups como Nubank, VTEX e Hotmart ou de bancos que vêm adotando a nuvem, como Itaú, que já migrou 70% da carga, BTG, Inter e C6. A soberania de dados tem um fato importante: o dado de nosso cliente encontra-se no Brasil e é criptografado. Há uma segurança lógica e física”, afirma Morais. Os hubs de inovação também têm se consolidado no Brasil. O do município de Osasco (SP) floresceu com incentivos fiscais, como a redução do ISS de 5% para 2%, o que permitiu mudar o perfil industrial para o de hub tech, atraindo empresas como Mercado Livre, AWS e iFood, data centers da Odata e da Ascenty. “Quintuplicamos a arrecadação, que se tornou a segunda maior de São Paulo e a oitava do Brasil, e criamos vários programas para os cidadãos. Com a reforma tributária, estamos tendo novamente de nos reinventar”, diz Diego Campos, diretor de Inovação e Ambiente de Negócios de Osasco. A IA, sobretudo a agêntica, está exigindo governança” Cláudio Furtado, secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação da Paraíba, destaca a formação de mão de obra qualificada em tecnologia, energias renováveis e jogos digitais, e um ecossistema de inovação estruturado com três parques tecnológicos no Estado. “Temos programas estruturantes para reter esses talentos. E estamos implantando o primeiro Centro Internacional de Computação Quântica e o Complexo Científico do Sertão”, diz. Rafael Cunha, secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife, diz que a capital também é um celeiro de formação de profissionais em três disputados cursos de tecnologia e referência em governo digital. “O Porto Digital tem quase 550 empresas, 24 mil colaboradores e faturamento anual de R$ 7,5 bilhões. Tudo isso faz de Recife um centro de excelência em ciência e tecnologia.” A complexidade tecnológica atual tem proporcionado outros nichos de negócios, segundo Leandro Ângelo, CTIO global da CI&T. “Os humanos não estão habituados a mudanças estruturais. Apesar de a transformação ser tecnológica, o resultado vem da capacidade de aprendizado das pessoas. A CI&T está criando um framework para orquestrar a transformação”, afirma. A IBM já foi uma empresa verticalizada de hardware, software, serviços e consultoria mas hoje dedica-se a fornecer o middleware (camada de software intermediária que atua como uma “ponte” ou “tradutor” entre aplicações) para os novos desafios digitais. “A IA, sobretudo a agêntica, está exigindo governança. Com vários colaboradores criando agentes, é preciso gerir credenciais e fazer uma orquestração que garanta segurança e evite fraudes”, diz Marcelo Braga, presidente da IBM Brasil. O grupo está investindo US$ 5 bilhões no Projeto Lightwell, com a Red Hat, para proteger a cadeia global de suprimentos de software de código aberto. Com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, a IBM anunciou uma iniciativa de US$ 1 bilhão na Anderon, fábrica de chips quânticos. “Hoje a IBM já tem 90 computadores quânticos instalados no mundo e estamos confiantes de que vamos atingir a supremacia quântica no final de 2026. A demanda vem de tudo que envolve simulação de biologia e novas moléculas, como fármacos, ou análises probabilísticas nas indústrias de petróleo e financeira”, afirma Braga. Além dos investimentos em pesquisa avançada, a inovação também tem sido impulsionada por iniciativas de inovação aberta. Na Vibra , um dos programas tem como parceiro estratégico o Nubank, que agrega competência em meios de pagamento. Um fundo de investimento em startups permite também acessar empresas que aceleram sua inovação. “A Easy Volt é voltada para eletromobilidade, a Deep ESG ajuda no inventário de descarbonização e a Carbigdata fornece câmeras de IA para monitorar os postos”, elenca Aspen Andersen, vice-presidente de gente, tecnologia e ESG da Vibra. A inovação também deve facilitar a transição energética. A Petrobras tem projetos voltados ao hidrogênio de baixo carbono e à busca de rotas alternativas de desenvolvimento com a mineração, focada em minerais críticos. “Defendemos uma transição energética justa, com a energia chegando a todo os povos. O consumo per capita de energia é muito baixo”, afirma Roberta Mendes, gerente-geral de transição energética e sustentabilidade da Petrobras. Roberta Godoi, CEO da Claro Empresas para PME, diz que as pequenas e médias empresas têm se mostrado mais dispostas a incorporar inovação, aproveitando que não têm as amarras das grandes corporações. “A Claro lançou a oferta de GPU Nvidia as a Service para facilitar a adoção de IA. A empresa pode contratar acesso à GPU por R$ 35 a hora”, afirma.