O Brasil se consolida como um dos protagonistas da inteligência artificial (IA) na América Latina. Segundo executivos de gigantes globais de tecnologia e especialistas que passaram pelo Web Summit Rio, o país reúne atributos difíceis de serem replicados, com condições de disputar não só o mercado de infraestrutura de processamento — já respondendo por 48% da capacidade latino-americana de data centers, segundo relatório da JLL —, mas também de ser exportador de soluções criativas pensadas para os desafios da região. A barreira no horizonte envolve a criação de estratégias de desenvolvimento tecnológico próprio, com regulação adequada e focada em evitar a dependência tecnológica de conglomerados estrangeiros, além de consolidar capacidades locais em IA. Para Alexey Milovidov, cofundador e diretor executivo de Tecnologia da ClickHouse, uma plataforma de banco de dados analíticos, iniciativas como o LatamGPT — um chatbot de IA criado no Chile que busca dar visibilidade à América Latina nesse novo segmento com repertório local (veja na página 3) — são importantes para que a região desenvolva conhecimento na construção de modelos de inteligência artificial generativa. — As capacidades, as pessoas e o talento estão aqui. Esse potencial só precisa ser desenvolvido. E não deve se limitar à construção de modelos fundamentais de IA, mas também às aplicações, aos produtos e à infraestrutura necessária para sustentar essa tecnologia — afirmou. Ele citou ainda, em conversa com jornalistas, o código Lua — linguagem de programação aberta desenvolvida pela PUC-Rio em parceria com a Petrobras, usada em jogos eletrônicos, softwares corporativos e outras áreas globalmente — como exemplo dessa capacidade na América Latina. Izabel Gallera, sócia da Canary, gestora de capital de risco que apoia startups em estágio inicial, destacou a resiliência dos empreendedores latinos, em média, superior à daqueles de outros países: — Historicamente, não há muita liquidez ou dinheiro disponível na América Latina, então você tem que fazer muito com pouco. Essa é uma força que podemos exportar para sobreviver e prosperar em diferentes geografias. Mais empreendedorismo Santiago Fossatti, da Kaszek Ventures, avalia que há mais inovação e jovens empreendendo em tecnologia no Brasil — Foto: Lucas Tavares Nessa área de investimentos, os especialistas veem vantagens do Brasil na camada de aplicação da tecnologia e no potencial de atrair empreendedores que migraram para o Vale do Silício, por exemplo, com potencial de reverter a fuga de talentos, com uma onda de oportunidades em IA. — Tem muitos jovens começando empresas. Isso não existia quando começamos a Kaszek ou quando meu sócio (o argentino Hermán Kasah) fundou o Mercado Livre. Os jovens agora aprendem com tentativa e erro direto da fonte. E têm alavancagem técnica para lançar empresas sem precisar de muito capital inicial — ponderou Santiago Fossatti, da Kaszek, uma das gestoras de capital de risco mais relevantes na América Latina. Outro trunfo do país é a abundância de geração elétrica de fonte limpa, o que tira de cena o gargalo energético comum a outras nações, permitindo a construção de data centers de larga escala, avaliam os especialistas. Também aí, disseram eles, é preciso garantir políticas públicas robustas, como incentivos fiscais e marcos regulatórios. Victor Arnaud, presidente para o Brasil da Equinix, empresa global de data centers, defende investimentos em toda a cadeia de valor do setor: — Não basta ter energia. Precisamos de uma política industrial para participar de toda a cadeia: chips, infraestrutura, modelos e aplicações. Se não prepararmos o país com regulação e incentivos, seremos apenas fornecedores de recursos naturais para que outros extraiam o valor — considerou. — Se tivermos um arcabouço robusto, poderemos transformar o Brasil em um hub global para treinamento de modelos de IA. Dependência tecnológica Ronaldo Lemos, um dos idealizadores do Marco Civil da Internet, alertou que o país precisa discutir IA não apenas sob a ótica da regulação, mas com foco em desenvolver capacidades próprias na área e reduzir sua dependência tecnológica do exterior. — O Brasil corre o risco de não desenvolver nenhuma capacidade local de independência em IA. O futuro, para o Brasil, não é depender da OpenAI ou de qualquer outra empresa estrangeira. A gente precisa desenvolver as próprias capacidades para não ficar na mão de um ou de outro — destacou o advogado especializado em tecnologia. O chefe de Políticas Públicas da OpenAI para a América Latina, Bruno Lewicki, concordou que o país precisa discutir a incorporação da IA à sua estratégia de desenvolvimento econômico e social. Mas ponderou que uma boa regulação deve buscar equilíbrio, para proteger “os direitos dos cidadãos, garantir transparência e segurança, mas também estimular o desenvolvimento tecnológico”: — Deveríamos estar discutindo um projeto de país e como o país vai incorporar a IA nesse processo, para que ela seja uma alavanca real de produtividade. Henna Virkkunen, da Comissão Europeia: Brasil se une a grupo seleto de cinco países em parceria digital com o bloco — Foto: Lucas Tavares / Agência O GLOBO O esforço para reduzir a dependência tecnológica de EUA e China é um desafio assumido pela Europa. E motiva a parceria digital anunciada pela União Europeia com o Brasil no Web Summit. O acordo insere o país no seleto grupo de parceiros estratégicos do bloco, ao lado de Japão, Coreia do Sul, Japão e Canadá. Essa parceria amplia a cooperação bilateral em temas como IA, governança de dados, conectividade, infraestrutura digital e plataformas on-line, explicou a vice-presidente executiva da Comissão Europeia para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, Henna Virkkunen, no evento: — Será nosso quinto acordo de parceria digital. Queremos aprofundar a cooperação com parceiros confiáveis, criar melhores oportunidades para empresas dos dois lados e fortalecer nossa colaboração em tecnologias. Estratégia e agilidade A maioria dos executivos brasileiros já enxerga a IA como um fator de competitividade. Transformar esse potencial em aumento de produtividade, porém, continua sendo um desafio para grande parte das empresas, ponderou a presidente da Microsoft Brasil, Priscyla Laham. — A inteligência artificial é um facilitador, não o objetivo final — disse. — Para ela virar dinheiro, é preciso que todo o C-level (a liderança executiva) saiba quais são os objetivos de negócio da empresa. Sem objetivo e sem contexto, você não vai conseguir resultados melhores nem mais rápidos. O Brasil, ela continuou, reúne condições favoráveis para capturar os benefícios dessa transformação, graças à combinação de uma população altamente digitalizada, setores econômicos em busca de ganhos de produtividade e uma comunidade estimada em cerca de cinco milhões de desenvolvedores: — O Brasil não está esperando o futuro chegar. Está construindo as bases para participar dele. O que a mineração tem a ver com o futuro da IA? Tudo, diz líder de empresa que inova no setor Nelson Leoni, CEO da WideLabs, empresa brasileira de IA, e Márcio Aguiar, diretor de Vendas Corporativas da Nvidia para a América Latina, também alertaram que o risco de investir em inteligência artificial sem estratégia clara é tão grande quanto o de ficar para trás nessa corrida tecnológica. Para Marcelo Braga, diretor da IBM no Brasil, o diferencial competitivo das empresas na era da IA estará cada vez mais na capacidade de combinar a tecnologia com seus próprios dados, processos e conhecimento interno. Soluções adaptadas É esse princípio, o de que dados e modelos próprios são soberania, que a brasileira WideLabs transformou em modelo de negócio. Em 2024, lançou o Amazonia IA, então apresentado como o maior modelo de linguagem do Brasil e do Hemisfério Sul. A aposta é criar soluções adaptadas à realidade local. A percepção sobre o potencial técnico da América Latina também se reflete em projetos de gigantes de tecnologia para a formação de profissionais e a aplicação prática da IA. A Nvidia, que tem na educação seu segundo maior mercado, aposta na formação de talentos e no fortalecimento da pesquisa como pilares para o avanço da IA no Brasil. Segundo Aguiar, universidades, centros de pesquisa e laboratórios corporativos brasileiros já desenvolvem projetos próprios de IA em instituições como Instituto Eldorado; Cenpes, da Petrobras; e Cepel, da Axia. — Temos todo o potencial de nos tornarmos um país relevante nessa era da IA moderna — afirmou o executivo da gigante de chips. — Olhando para a América Latina, Brasil e México são os maiores, mas o principal fator na IA moderna é a agilidade, não o tamanho. Milena Leal, diretora do Google Cloud no Brasil, avalia que o país tem avançado rápido na adoção de IA do último ano para cá, com aproximadamente 62% das empresas já utilizando a tecnologia e colhendo resultados em termos de receita operacional. Depois de capacitar 1 milhão de profissionais, o Google Cloud agora tem a meta de treinar outros 3 milhões de brasileiros nos próximos anos. — Ninguém consegue fazer algo muito profundo se não se sentir confortável com aquela informação. Esse medo é vencido quando você dá instrução — afirma. A cobertura do Web Summit Rio 2026 na Editora Globo é apresentada pelo Itaú. (Cristina Massari e Thayz Guimarães, em reportagem especial para O GLOBO)
Brasil pode transformar liderança em infraestrutura em protagonismo tecnológico na América Latina
País tem vantagens ao contar com energia limpa, largo mercado consumidor e talento para exportar soluções em IA. Regulação e qualificação são os desafios











