Organizações buscam formas de produzir ganhos concretos em agilidade, eficiência, receita e vantagens competitivas com IA Em sessão com o jornalista Daniel Catalão, a head do Centro de Excelência em Inteligência Artificial do Fórum Econômico Mundial, Cathy Li, disse que a IA pode adicionar até US$ 1,7 trilhão à economia da América Latina até 2030 — Foto: Divulgação A quarta edição do Web Summit, maior evento de tecnologia e transformação digital da América Latina, elegeu, pelo segundo ano consecutivo, a inteligência artificial como tema protagonista. Foram quatro dias de debates, de 8 a 11 de junho, reunindo mais de 40 mil participantes de cerca de cem países no Rio de Janeiro. A IA esteve presente de forma transversal em diversos painéis das 14 trilhas temáticas do evento, que incluiu fintechs, economia criativa, SaaS (software como serviço), energia, marketing, robótica e esportes, além de ganhar uma trilha exclusiva que discutiu seu futuro e suas aplicações. Apesar do protagonismo, houve mudanças relevantes na abordagem do tema; a pauta mudou de foco. Ficou no passado a questão sobre quem usa ou não a ferramenta em seus negócios. O mais importante agora é saber definir claramente seus impactos sobre produtividade, escala, governança e, sobretudo, sobre a criação de valor dos negócios e identificar áreas onde a IA será capaz de aumentar agilidade, eficiência, receita e vantagens competitivas. Nos palcos, executivos de empresas como Google, Microsoft, Meta, Nvidia e IBM, entre os 479 palestrantes do Web Summit, também falaram a respeito da soberania de dados, estratégia para o uso das informações corporativas, da relevância da inovação e integração da IA a operações críticas, como governança, segurança e execução em larga escala. Os números trazidos por Cathy Li, head do Centro de Excelência em Inteligência Artificial do Fórum Econômico Mundial, mostram a dimensão de estratégias bem-sucedidas. Segundo ela, a inteligência artificial pode adicionar entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão à economia da América Latina até 2030, elevando a produtividade regional em até 2,9%. “Transformar essa oportunidade em realidade exigirá uma ação coordenada entre governos, empresas, startups e instituições de ensino”, disse Li, citando dados do relatório “Latin America in the Age of AI”, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com a McKinsey & Company. O estudo é o primeiro da organização dedicado exclusivamente ao potencial da inteligência artificial na região. Transformar essa oportunidade em realidade exigirá ação coordenada” Em sua apresentação, Li enfatizou as vantagens competitivas da América Latina para disputar espaço na nova economia baseada em IA. O Brasil combina talentos, ecossistemas de fintechs em expansão, dados públicos, infraestrutura e energia renovável, mas precisa transformar essa vantagem em investimento coordenado e ação política. A tecnologia em si não cria transformação. O desafio - e esse foi um dos consensos - é como utilizá-la dentro das organizações para que os negócios possam escalar. É nesse contexto que a liderança se torna vantagem competitiva. “Entender do que a empresa precisa é muito mais importante do que ser o primeiro a investir. Conheça o seu negócio, reúna dentro da empresa as pessoas que vão impactar a transformação tecnológica. Esse é o ponto de partida”, disse Márcio Aguiar, diretor-executivo para a América Latina da Nvidia, empresa líder mundial em inteligência artificial, que atingiu valor de mercado de US$ 5 trilhões em junho. Até porque, segundo ele, o mundo está entrando em uma nova fase da tecnologia, apontando para a transição da IA generativa para a IA agêntica, operada por agentes inteligentes, que tomam decisões, executam tarefas e interagem de forma mais sofisticada. “A próxima onda da IA já começou. Este ano trouxemos novos conceitos, o [conjunto de dados de código aberto] Nemotron Personas, onde criamos modelos sintéticos de pessoas. O número de downloads atingiu mais de 80 milhões em três meses”, disse. Essa nova onda de IA permite que as organizações utilizem milhares de agentes autônomos simultaneamente, executando tarefas complexas de forma autônoma. Nesse processo, o Brasil, segundo ele, está bem-posicionado, podendo se tornar um dos principais polos de infraestrutura de IA da América Latina. Falta, no entanto, definir políticas públicas capazes de atrair investimentos em data centers. A esse respeito, Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e um dos idealizadores do Marco Civil da Internet no país, defendeu que o Brasil precisa ir além da questão regulatória sobre IA. O maior risco, a seu ver, é que o país não desenvolva capacidades próprias e se torne dependente de tecnologias externas. Reúna dentro da empresa as pessoas que vão impactar a transformação tecnológica” — Márcio Aguiar Bruno Lewick, chefe de políticas públicas da OpenAI para a América Latina, defendeu o uso de IA como ferramenta de desenvolvimento econômico e de fortalecimento da soberania tecnológica, a exemplo do que vem ocorrendo em países como Índia e Vietnã. Fortalecer a tecnologia e incentivar o sistema de código aberto são medidas que evitarão essa dependência. Isso, a seu ver, porque modelos de código aberto permitirão a adaptação de sistemas de IA às necessidades brasileiras. Os avanços em curso visam à transformação de processos, não podendo se limitar a executar com rapidez atividades individuais porque, nesses casos, seus custos deixam de valer a pena. A tese defendida por Michele Catasta, presidente e head de IA da Replit, empresa de “vibe coding” (permite que códigos complexos sejam desenvolvidos apenas com comandos de voz por profissionais sem formação técnica em linguagem natural enviados a sistemas de IA), mostra como a IA pode otimizar a arquitetura de organizações sem desperdiçar recursos. Catasta, considerado uma das maiores referências em “vibe coding” no mundo, mostrou como agentes de IA estão reduzindo a distância entre ideia e execução de software, criando sistemas mais aderentes às necessidades de cada organização. “Estamos falando de economias de softwares que custariam centenas de milhares de dólares e que agora podem ser construídos da forma que a empresa invista centenas de dólares. Quando a empresa cria sua própria ferramenta, ela captura exatamente o fluxo de trabalho do negócio. Esse é o ganho de produtividade que mais me entusiasma”, disse. Por fim, a mensagem deixada pelo Web Summit é a de que a IA deixou de ser hype; o momento é de aplicações práticas e geração de resultados, exigindo das organizações talentos e revisão de modelos de trabalho.
Mercado cobra maturidade da IA e busca impacto real na produtividade
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