Dias depois de protocolar confidencialmente seu pedido de abertura de capital, a Anthropic, gigante de inteligência artificial avaliada em US$ 965 bilhões, surpreendeu ao sugerir que o mundo poderia se beneficiar de uma desaceleração no desenvolvimento da própria tecnologia que impulsiona seu crescimento. Em uma postagem em seu blog, a Anthropic sugeriu que o mundo poderia se beneficiar de uma desaceleração no desenvolvimento das próprias tecnologias que vêm gerando enormes receitas para a empresa. Desde que concorrentes globais concordassem e mecanismos de fiscalização fossem estabelecidos, isso ajudaria as sociedades a lidar com as “imensas implicações” da IA, afirmou a companhia. Críticos há muito acusam a Anthropic de praticar “marketing do apocalipse” — promovendo seus produtos como tão bons que se tornam perigosos. Mas o coautor da postagem, que também é cofundador da empresa, diz que a motivação é outra. “Dizemos essas coisas porque acreditamos que o mundo precisa saber a verdade sobre o que está acontecendo”, afirmou Jack Clark, cofundador da empresa. O alerta ocorre enquanto bilhões de dólares são despejados na inteligência artificial. Os mercados acionários cada vez mais parecem uma gigantesca aposta de que ela transformará o trabalho e impulsionará avanços científicos sem precedentes. O boom dos investimentos em IA já representa uma parcela grande e crescente do crescimento econômico. O que eles veem é uma ameaça de automação de milhões de empregos, uma nova era de ataques cibernéticos conduzidos por robôs, uma expansão imparável de data centers que consomem enormes recursos e aumentam as contas de energia, além de um descompasso entre os grandes vencedores financeiros e aqueles que lutam para sobreviver. Tudo isso é suficiente para tornar a IA um tema polêmico para os eleitores e um grande risco político para os governos. “As coisas vão se transformar”, disse Evan Solomon, ministro da IA do Canadá. “O grupo dos entusiastas tem um argumento forte de que a IA será muito benéfica”, afirmou. “O grupo dos protestos também tem motivos para preocupação: o que isso significará para minha privacidade, meus dados, meu emprego, minhas habilidades e meu futuro?” As preocupações chegaram também aos governos. Na sexta-feira, os Estados Unidos determinaram que a Anthropic restringisse o acesso de estrangeiros a dois de seus modelos mais avançados, citando questões de segurança nacional. Em resposta, a empresa bloqueou o acesso para todos os clientes a fim de garantir conformidade. Mas também contestou a medida em comunicado publicado em seu site, afirmando que o governo está se baseando em informações que não representam ameaça suficiente para justificar o bloqueio. O receio em torno da IA aparece em pesquisas de opinião e em disputas locais contra a construção de data centers. Há resistência crescente a projetos de data centers, enquanto entre os americanos a IA agora é menos popular do que a agência de imigração ICE, segundo uma pesquisa recente da NBC. Ao mesmo tempo, a expansão da IA é hoje um dos principais motores de crescimento em boa parte do mundo, ajudando a compensar os custos crescentes de energia decorrentes da guerra dos EUA contra o Irã. Segundo a McKinsey, os gastos globais com data centers podem atingir US$ 7 trilhões até 2030. Isso impulsiona a construção civil e diversos outros setores. Se tudo isso fracassar, o mundo sentirá os efeitos. “Existe essa única fonte de demanda”, disse Karen Dynan, professora de economia da Universidade Harvard. “Se houver um revés nessa área, existem riscos reais para o ritmo da economia global.” Mas os benefícios prometidos ainda convivem com dúvidas. Enquanto a produtividade demora a aparecer, a demanda crescente por energia, água e chips já pressiona custos. Além disso, aumentam os temores sobre o mercado de trabalho. Segundo o Índice Americano de Risco de Empregos por IA, produzido pela Escola Fletcher da Universidade Tufts, cerca de 9,3 milhões de empregos nos EUA estão vulneráveis em um cenário de adoção mediana. O número pode se aproximar de 20 milhões caso a tecnologia se espalhe mais rapidamente. Também cresce a preocupação com a desigualdade. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, afirma que organizações como a sua subestimaram as desigualdades geradas pela globalização e deseja evitar que o erro se repita. Mas ainda não está claro como isso será feito. O boom da IA tem enorme potencial, disse Eswar Prasad, professor de economia da Universidade Cornell. “Mas pode igualmente alimentar instabilidade econômica e social se os ganhos permanecerem altamente concentrados, em meio a deslocamentos generalizados de empregos e indústrias tradicionais.” As inquietações não estão restritas ao Ocidente. Na Coreia do Sul, surgiram debates sobre como distribuir os ganhos extraordinários obtidos por fabricantes de chips. Na China, único país próximo de igualar os EUA no desenvolvimento da tecnologia, as autoridades enfrentam o desafio de promover a inovação enquanto protegem uma força de trabalho de mais de 700 milhões de pessoas. Uma onda de demissões poderia ameaçar a estabilidade social, prioridade central do Partido Comunista. O debate também ocorre dentro das próprias empresas de IA. A Anthropic e a OpenAI têm alertado para a possibilidade de que sistemas mais avançados possam em breve cruzar um limite irreversível. Isso desencadearia um processo conhecido como “autoaperfeiçoamento recursivo”, no qual a IA seria capaz de criar versões mais inteligentes de si mesma com pouca necessidade de intervenção humana. Segundo executivos do setor, isso poderia gerar avanços extraordinários em áreas como medicina, mas também causar caos nos mercados de trabalho globais e deixar uma parcela significativa da humanidade desempregada. Poucos dias após a Anthropic defender uma desaceleração, o CEO da OpenAI, Sam Altman, pediu a criação de uma organização internacional para coordenar esforços de redução de “riscos catastróficos”. Apesar dos alertas, há quem veja perigo em um excesso de regulação. “A cautela regulatória excessiva também é um risco”, afirmou Landry Signe, da Universidade Estadual do Arizona. “O custo de oportunidade de desacelerar a implementação da IA é enorme.” Para o economista Robert Gordon, professor de economia de 85 anos da Universidade Northwestern e um dos maiores historiadores do crescimento econômico americano, acredita que a IA realmente impulsionará a produtividade. Mas alerta para as disrupções que virão junto. “Será uma enorme bifurcação”, disse. “Veremos muitas empresas prosperando, muitas pessoas ficando mais ricas e muitos trabalhadores usando a IA como complemento para desempenhar melhor suas funções e aumentar sua produtividade.” “Ao mesmo tempo, estaremos criando um enorme problema social de desemprego entre trabalhadores qualificados de colarinho branco.” “Isso será um peso enorme para a sociedade”, concluiu Gordon. “E nós vimos apenas o começo disso.”
Enquanto mercados apostam bilhões na IA, eleitores temem impactos sobre emprego e renda
Cresce o alerta entre especialistas, governos e até executivos do próprio setor sobre desemprego e desigualdade









