Estudo aponta que alavancagem é mais crítica em negócios de logística e varejo Luiz Barbosa, da W1: ciclo vicioso — Foto: Divulgação Um comportamento de parte das empresas de médio porte em relação ao nível de endividamento tem chamado a atenção de especialistas em reestruturação de companhias. Em vez de tomarem crédito para financiar projetos de expansão, essas empresas vêm aumentando o nível de endividamento somente para pagar despesas da operação. Esse é um dos achados de um levantamento da consultoria W1 Business feito com exclusividade para o Valor. O estudo qualitativo feito pela consultoria acompanhou o desempenho de 31 empresas, com faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 500 milhões, entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026. Nesse grupo, 23 (74%) carregam dívidas com volume total de R$ 172, 6 milhões, sendo 65,5% do capital financiado (R$ 113,1 milhões) totalmente destinados ao pagamento de despesas correntes, a chamada ‘dívida da sobrevivência’, diz Luiz Henrique Barbosa, diretor da W1 Business, consultoria para pequenas e médias empresas. O consultor observa que as empresas de médio porte estão buscando crédito não para crescer, mas para não parar de operar. “Dois em cada três reais de dívida foram tomados para pagar despesas do dia a dia - não para crescer. São empresas usando crédito caro para sobreviver à operação corrente, o que cria um ciclo vicioso: paga juros com a margem, sobra menos para investir, precisa de mais crédito para operar”, afirma Barbosa, que também é professor de finanças da pós-graduação da Fundação Dom Cabral. O levantamento ainda aponta que os setores com maior percentual de margem comprometida pelo endividamento foram logística e varejo. No grupo analisado, duas empresas de logística comprometeram toda a sua margem operacional com o pagamento de juros. Juntas, essas companhias têm faturamento anual de R$ 88 milhões e somam R$ 36,5 milhões em dívidas, o que representa alavancagem de 41,5%, o percentual mais alto entre todos os segmentos. A empresa deixa de gerar margem e passa a operar só para girar a dívida” A segunda maior alavancagem (34,4%) foi identificada entre as oito empresas de varejo que fazem parte do estudo. O faturamento delas soma R$ 177,8 milhões, e o volume de dívida chega R$ 61,1 milhões. Barbosa observa que as margens no setor de logística costumam variar entre 8% e 12% do faturamento, e as duas empresas do segmento que compõem o estudo apresentam 11,73% de comprometimento. As empresas de logística precisam equilibrar as margens com necessidade de investimentos expressivos para adquirir e renovar frotas. “Cada empresa de logística deve, em média, o equivalente a cinco meses de faturamento. Com 11,73% de comprometimento, considerando margem de 10%, o resultado é lucro zero após pagar dívida. Fica impossível investir, manter frota, contratar, e o ciclo de degradação é acelerado”, afirma o consultor. Com relação às garantias oferecidas pelas empresas ao tomarem crédito, o estudo mostra que 78% da dívida (R$ 134,7 milhões) são garantidos por ativos reais. Porém, entre esse tipo de garantia, R$ 83,5 milhões pertencem a cinco empresas em situação de estresse crítico nos segmentos de varejo, logística e indústria. Barbosa diz que, em casos de risco iminente de execução, o impacto no varejo é a perda de lojas; no caso da logística, a empresa perde a frota, condição que vai paralisar o operacional do negócio. O estudo mostra ainda que a multiplicação de credores é outro desafio. Entre as endividadas, 20 têm os bancos privados como principais credores. Do total da dívida analisada, 91% está concentrada em empresas com múltiplos credores. Barbosa diz que essa condição aponta para históricos de refinanciamentos sucessivos e perda de acesso ao crédito tradicional. — Foto: Arte/Valor “Se essas empresas não conseguirem corrigir erros da gestão operacional, vão rolar dívida e aumentar a sangria. O colapso será adiado, mas não evitado”, diz. Silvia Machado Wilbert, diretora jurídica e sócia da Safegold, consultoria voltada para reestruturação e desempenho empresarial, observa que muitos negócios de médio porte passam a financiar a própria operação por meio de antecipações de recebíveis, conta garantida e linhas emergenciais de curto prazo. Esse mecanismo tende a se tornar um problema quando utilizado de forma contínua para quitar despesas recorrentes. “Isso cria um ciclo de dependência financeira. Parte relevante da geração futura de caixa passa a ser consumida antes mesmo de entrar na empresa. A empresa deixa de operar para gerar margem e passa a operar apenas para girar dívida”, avalia. Outro ponto relevante na gestão operacional é equilibrar expansão e estrutura financeira. Wilbert ressalta que quando o faturamento cresce, mas a liquidez não acompanha esse ritmo, há uma percepção de que o negócio tem bom desempenho, e o problema fica flagrante no caixa. “Quando a estrutura financeira não acompanha esse crescimento, a empresa passa a financiar a própria expansão por antecipações de recebíveis e linhas de curto prazo. Na prática, o faturamento cresce, mas a liquidez diminui. Em muitos casos, o problema não está na falta de venda, mas na ausência de capital de giro e de uma estrutura financeira compatível com o ritmo de crescimento da operação”, detalha Wilbert. Kecy Ceccato, sócia do Atra Advogados e especialista em direito societário e de negócios, diz que o melhor atalho para evitar o endividamento sem controle é entender onde o capital é usado na operação e o que efetivamente sobra no fim das contas. Para as empresas que estão tomando empréstimo caro, sem entender o caminho do dinheiro na operação, é preciso estabelecer mecanismos de controladoria. “É necessário ter controle das contas, que pode ser feito por uma empresa de contabilidade mais estratégica. Mesmo que a empresa seja pequena, é preciso entender os números da operação”, afirma.