Cultura de compliance e olhar para controladoria são fundamentais para evitar colapso com endividamento Análise estratégica dos gastos e de prioridades entre credores podem ser o caminho para ampliar margem e sustentar a operação — Foto: Pixabay Nos últimos dois anos, o nível de endividamento das empresas de médio porte tem aumentado, enquanto o fôlego para quitar as dívidas vem diminuindo. Esse cenário, dizem os especialistas em reestruturação de empresas, é impactado ainda pela taxa de juros em dois dígitos, o que dificulta ainda mais alcançar margens mínimas para manter a operação. Diante desse desafio, o empreendedor precisa se adaptar e aprender a ler e acompanhar os números da operação para estruturar dados e conseguir bons resultados em negociações com credores. “O empresário sai da função de puramente empreendedor, aquele que cria o negócio, e passa a ser um controller [profissional que gerencia a saúde financeira da empresa]. O empresário também precisa entender como estão sendo feitas as negociações com fornecedores e os pontos de risco”, diz Kecy Ceccato, sócia do Atra Advogados e especialista em direito societário e de negócios. Com experiência em reestruturação de empresas de médio porte, Ceccato diz que ninguém precisa ser contador para abrir uma empresa, mas recomenda que o empresário saiba que dados são estratégicos para o negócio e como extrair essa informação com os profissionais de contabilidade, área comercial e compras. A advogada observa que a situação dos negócios de médio porte em relação ao endividamento se agravou nos últimos dois anos, pressionada também pela manutenção da taxa de juros em dois dígitos. “Temos notado, especialmente nos últimos dois anos, que o fôlego está acabando. A taxa de juros está estrangulando todo mundo”, ressalta a advogada. A situação preocupa a advogada, que enxerga um cenário mais desafiador para empresas de serviço. Esses negócios têm muitos custos com mão de obra e muitas vezes se veem pressionadas por clientes que postergam pagamentos para 90 dias. “É uma forma do tomador do serviço ganhar caixa, por outro lado a empresa que presta o serviço passa a pagar juros para manter o fluxo de caixa, o que comprime ainda mais a margem dela”, observa. No momento de aperto de margem, muitas empresas veem a situação financeira se complicar e começam a atrasar compromissos com credores. Luiz Henrique Barbosa, diretor da W1 Business, consultoria para pequenas e médias empresas, diz que um grande desafio no segmento de médio porte é a falta de clareza financeira. “Uma grande parte das empresas de médio porte não tem clareza financeira, não tem os demonstrativos estruturados, DRE e fluxo de caixa. A gestão dessas empresas, geralmente familiares, só começa a ficar mais atenta na hora que o caixa aperta recorrentemente”, observa. Visão estratégica da dívida Kecy Ceccato ressalta a necessidade de ter um olhar estratégico para a dívida. Quando a empresa soma o endividamento contratual e tem um limite de orçamento para isso, precisa eleger prioridades para aproveitar oportunidades oferecidas pelo mercado. “Uma empresa que tem R$ 5 milhões no bolso para pagar dívidas no total de R$ 20 milhões precisa escolher estrategicamente o que pagar primeiro e eventualmente consegue reduzir os R$ 20 milhões para R$ 15 milhões. A empresa precisa escolher como fazer esses pagamentos de forma estratégica para poder usufruir das oportunidades que o mercado apresenta”, detalha a advogada. Na análise de Barbosa, que também é professor de finanças da pós-graduação da Fundação Dom Cabral, no momento de crise é preciso saber como proteger o caixa da empresa de forma estratégica. O consultor recomenda reorganizar prazos para recebimentos, atualizar inventário de estoques, renegociar com fornecedores, quando possível, e fazer o reperfilamento das dívidas. “Com o reperfilamento das dívidas, é possível negociar parcelas e obter empréstimos com custo menor. Para ter sucesso nessa etapa, as empresas precisam desenvolver uma modelagem financeira que esteja em linha com a conjuntura da empresa. Se montar algo bem estruturado e com clareza financeira e visão, os credores tendem a compreender melhor os esforços da empresa”, diz Barbosa. Na estruturação da modelagem, o consultor geralmente faz exercícios com três cenários. Um mais conservador possível, outro mais próximo do que a empresa consegue executar e um mais otimista. Barbosa também recomenda que seja promovida a integração entre o econômico e o caixa. Muitas vezes a empresa acha que o caminho é aumentar as vendas, mas essa decisão acaba pressionando ainda mais o caixa, diz. Também é imprescindível fazer simulações do parcelamento da dívida e enxergar atitudes que podem melhorar efetivamente as margens. Cortar custos será inevitável nesse processo, porém Barbosa observa que é preciso diferenciar os gastos. “A empresa deve compreender o que é um custo estratégico e outros gastos. O gasto estratégico vai ajudar a empresa a aumentar a receita de forma estruturada, isso pode se traduzir em investimento no time comercial ou em marketing. Já o gasto não estratégico, que não influencia no crescimento da empresa, pode sofrer mais cortes. O importante é compreender o que é necessário para a empresa criar musculatura e voltar a crescer”, afirma.