Informações constam do Questionário Pré-Copom, divulgado nessa quarta-feira, e mostram que ações parafiscais (que reforçam o crédito direcionado) afetam visão dos analistas em tema de recorrentes alertas da autoridade monetária 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo — Foto: Foto: Cristiano Mariz RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/06/2026 - 15:03 Preocupação com Situação Fiscal do Brasil Aumenta, Aponta Copom A percepção de piora na situação fiscal do Brasil aumentou significativamente entre março e junho, segundo o Questionário Pré-Copom, apesar de uma leve melhora nas projeções de resultado primário. O aumento das medidas parafiscais, intensificando o crédito direcionado, eleva preocupações sobre a sustentabilidade fiscal. O Copom alerta para riscos de políticas desalinhadas afetarem a taxa de juros e a estabilidade econômica. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A preocupação do mercado financeiro com o quadro fiscal do Brasil subiu muito desde março, mesmo com uma relativa melhora nas projeções para o resultado primário deste e do próximo ano. É o que mostra o Questionário Pré-Copom (QPC), pesquisa que o BC realiza com agentes do setor financeiro para entender melhor os cenários e tomar sua decisão sobre a taxa de juros. O levantamento mostrou que em apenas três meses, entre a reunião realizada em março e a de junho, o índice dos que acham que as condições fiscais pioraram passou de 6% para 50%. Em abril, quando houve outro levantamento, os que viam uma situação fiscal pior era de 22%. Nos últimos dois anos, o QPC mostrou números piores ou igual em apenas três ocasiões. Apenas 2% acham que a situação melhorou, nível que era de 8% em março. As respostas têm um alto grau de subjetividade, é importante destacar, porque basicamente trata-se de uma questão qualitativa sobre percepção dos economistas: "Como você avalia a evolução da situação fiscal desde o último Copom, considerando tanto seu cenário central quanto os riscos envolvidos?", foi a pergunta do BC. De outro lado, no aspecto quantitativo, os analistas até esperam um resultado primário (receitas menos despesas, sem juros) melhor para 2026, com déficit de R$ 61 bilhões (ante R$ 70 bilhões em abril), nível que se espera que fique mantido nas projeções para 2027. As projeções de dívida, tanto bruta como líquida, não tiveram alterações muito fortes. A explicação para a suposta incoerência parece estar no aumento das chamadas medidas “parafiscais”, que aumentam a oferta de crédito direcionado na economia. Não à toa, a expectativa de expansão do crédito direcionado é de 12,1% para 2026, ante 10,5% em março, no grupo das empresas, enquanto nas pessoas físicas, subiu de 8,6% para 9,3% entre março e junho. O Copom tem sistematicamente levantado os riscos de uma preocupação com a situação fiscal e de políticas desalinhadas com a estratégia de política monetária em seus documentos. Não foi diferente na ata da última reunião, divulgada ontem. “O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, diz o texto. “O Comitê mantém a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, completou o BC. Para o chefe da área de macroeconomia do Asa e ex-secretário do Tesouro, Jeferson Bittencourt, a melhora das projeções de resultado primário reflete a expectativa de aumento das receitas, sobretudo por conta do choque do petróleo, mas também por expectativa maior de inflação. — Não se pode dizer que são ganhos estruturais de resultado primário, o que diminui o otimismo da percepção de melhora, principalmente considerando o grau de indexação da despesa pública. Na visão dele, a piora da percepção de risco fiscal reflete a disposição do governo nestes três meses de criar programas com custos fiscais implícitos, por meio de operações de crédito que têm fonte de recursos no governo. — Isso reforçou a percepção de fragilidade do compromisso com a sustentabilidade fiscal. Essa percepção de maior risco por conta do “parafiscal” pode ser visto discretamente no fato de que, para 2027, o mercado promoveu uma leve redução na dívida bruta entre março e junho, mas elevou a expectativa de dívida líquida, ainda que com magnitudes pequenas. —Ambas projeções deveriam cair em função da revisão para cima da inflação, mas a DLSP capta muito melhor os efeitos da política parafiscal que a DBGG, deixando mais evidente o risco fiscal embutido nestes programas — disse Bittencourt. O QPC também mostra um mercado bastante dividido sobre o que o Banco Central deveria fazer em termos de taxa de juros, tanto na reunião da semana passada, recheada de polêmica por conta da comunicação do BC, como na próxima reunião, programada para agosto. A despeito de uma maioria entender que o juro deveria ser cortado em 0,25 ponto porcentual em junho, mas com 45% considerando que o correto seria manter. Esses índices se invertem para agosto, com a maioria defendendo parar de cortar. Nessa quinta-feira, o BC divulga o relatório de política monetária de junho, que em tese deve trazer mais detalhadamente seus cenários para a economia brasileira. É mais uma chance para a autoridade monetária tentar explicar sua última decisão e reconquistar parte da credibilidade que ficou no caminho de uma comunicação incoerente com o cenário apresentado.