O paradoxo das crises corporativas em períodos de expansão revela que o problema raramente está no mercado. Está nas decisões financeiras tomadas quando tudo parecia ir bem. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Valdoir Slapak — Foto: Divulgação Existe um paradoxo que se repete no ambiente empresarial brasileiro e que raramente recebe a atenção que merece: empresas que fecham as portas, demitem funcionários ou entram com pedido de recuperação judicial em anos em que a economia está crescendo. Se o mercado está favorável, por que tantas empresas não conseguem se sustentar? A resposta, na maioria dos casos, não está no ambiente externo. Está nas decisões financeiras que foram tomadas justamente durante os períodos de crescimento, quando o otimismo tornava os riscos invisíveis e as consequências de longo prazo pareciam distantes demais para justificar cautela. Valdoir Slapak, executivo com atuação em administração, finanças e reestruturação empresarial, parte dessa constatação no trabalho desenvolvido junto à Fource Consultoria: o colapso que se torna público em um momento de dificuldade foi construído, silenciosamente, nos anos de bonança que o precederam. Como o crescimento cria fragilidade sem que ninguém perceba? Quando uma empresa cresce, as decisões financeiras que acompanham esse crescimento raramente são avaliadas pelo risco que criam no médio prazo. A expansão financiada com dívida cara parece razoável quando a receita está subindo e o custo do serviço da dívida parece administrável. A contratação de estrutura fixa acima da capacidade de receita recorrente parece justificada quando a demanda está aquecida. A concessão de prazos de pagamento cada vez mais longos para clientes cada vez maiores parece necessária para não perder contratos relevantes. Cada uma dessas decisões, tomada isoladamente, tem uma justificativa plausível. O problema aparece quando elas se acumulam ao longo de dois, três anos de crescimento e criam uma estrutura que só funciona se o ambiente continuar exatamente tão favorável quanto estava quando as decisões foram tomadas. Quando o ambiente muda, nem precisa mudar muito; essa estrutura revela sua fragilidade de forma rápida e simultânea em vários pontos ao mesmo tempo. O que acontece com os funcionários e fornecedores quando isso ocorre? O custo de uma crise corporativa raramente fica restrito à empresa e aos seus acionistas. Ele se distribui por uma cadeia de pessoas que dependiam daquela operação de formas distintas. Os funcionários que perdem o emprego sem aviso, muitas vezes depois de anos de dedicação a uma empresa que parecia sólida. Os fornecedores que ficam com notas a receber que nunca serão pagas integralmente. Os clientes que têm contratos em andamento e precisam encontrar alternativas em prazo curto. Esse impacto coletivo é o que torna as crises corporativas evitáveis, especialmente custosas. Não porque o fracasso empresarial seja inevitável em todos os casos, mas porque, na maioria dos processos de reestruturação acompanhados por Valdoir Slapak, havia um ponto no passado em que uma intervenção financeira estruturada teria mudado o desfecho. Um diagnóstico que revelasse a fragilidade antes que ela se tornasse crise. Uma renegociação que aliviasse a pressão de curto prazo antes que o caixa fosse exaurido. Uma revisão da estrutura de custos que preservasse a operação sem precisar comprometer equipes inteiras. Por que o problema é reconhecido tarde demais? Crises corporativas raramente chegam como surpresa para quem entende de finanças. Os sinais estão nos dados meses antes: a margem que cai gradualmente enquanto o faturamento ainda cresce, o prazo de recebimento que se alonga enquanto o de pagamento se encurta, a dependência de crédito de curto prazo que se torna recorrente para cobrir despesas que deveriam ser cobertas pela operação. Esses sinais não aparecem em um único indicador. Precisam ser lidos em conjunto, com olhar treinado para identificar o que cada movimento representa dentro da estrutura financeira específica daquela empresa. Quando essa leitura não existe dentro da organização, cada sinal é tratado como um problema pontual e conjuntural, e a deterioração continua se acumulando até o ponto em que se torna impossível de ignorar. O que muda quando a intervenção acontece cedo? A diferença entre uma empresa que atravessa uma crise financeira com a operação preservada e uma que não consegue não está, na maioria dos casos, na gravidade do problema original. Está no momento em que o problema foi reconhecido e na qualidade da resposta que foi dada a partir desse reconhecimento. Empresas que chegam a um processo de diagnóstico e reestruturação financeira nos primeiros sinais de deterioração ainda têm reservas para negociar, equipe para preservar e operação para reorganizar sem cortes que comprometam a capacidade de entrega futura. As que chegam quando a crise já está visível para todos enfrentam um conjunto de escolhas muito mais restrito, com menos tempo, menos recursos e menos espaço para erro. É nesse intervalo, entre o primeiro sinal e o colapso, que o trabalho de reestruturação financeira desenvolvido por Valdoir Slapak produz seu resultado mais concreto.