Projeções financeiras calibradas para o cenário otimista são as que mais falham quando o ambiente muda. O que diferencia modelos que orientam decisões dos que apenas confirmam expectativas é a qualidade das premissas adversas. Valdoir Slapak — Foto: Divulgação Há um viés estrutural na forma como a maioria das empresas elabora suas projeções financeiras: elas são construídas para confirmar a viabilidade de uma decisão que já foi tomada, não para testar suas vulnerabilidades. O resultado são modelos que fecham bem no cenário base, apresentam sensibilidades que parecem razoáveis e produzem projeções que ninguém dentro da organização tem real incentivo para questionar. Quando o ambiente diverge do cenário base, o que acontece com frequência, esses modelos deixam de ser úteis exatamente no momento em que mais seriam necessários. Valdoir Slapak, executivo com atuação em gestão estratégica, finanças corporativas e reestruturação empresarial, parte de uma premissa diferente na construção de modelos financeiros para ambientes de alta incerteza: o cenário adverso não é um apêndice do modelo. É o ponto de partida. É a partir do que acontece quando as coisas não saem como planejado que se define se uma decisão é estruturalmente sólida ou apenas dependente de condições que podem não se confirmar. Por que premissas otimistas são o problema mais comum? Premissas otimistas em modelos financeiros raramente são o resultado de má-fé. São o resultado de um processo de elaboração que parte de metas, não de condições reais de mercado. Quando o ponto de partida é "precisamos crescer X% para justificar esse investimento", as premissas tendem a ser construídas de trás para frente, calibradas para produzir o resultado necessário em vez de refletir o que o ambiente efetivamente permite. O problema não está em ter metas ambiciosas. Está em confundir metas com premissas de modelagem. Uma meta é o que a organização quer alcançar. Uma premissa é o que o ambiente vai oferecer como condição para que a organização opere. Quando as duas são tratadas como a mesma coisa, o modelo financeiro perde sua função de instrumento de teste da realidade e se torna um instrumento de confirmação de decisões que já foram tomadas por outros critérios. Valdoir Slapak identifica essa confusão como uma das origens mais comuns de planos financeiros que não resistem ao primeiro desvio do cenário projetado, especialmente em processos de reestruturação onde as premissas precisam ser defendidas perante credores que farão exatamente o questionamento que o modelo interno não fez. Como construir modelos que funcionam em cenários adversos? Um modelo financeiro robusto para ambientes de alta incerteza começa pela definição explícita das variáveis que mais impactam o resultado e pela elaboração de cenários que testam o comportamento do modelo quando essas variáveis se movem desfavoravelmente. Não se trata de elaborar um cenário catastrófico, mas de definir com precisão qual é o pior cenário plausível dentro do conjunto de condições que o ambiente pode razoavelmente oferecer. A partir desse cenário adverso, as questões relevantes para a decisão se tornam mais claras: a empresa consegue sobreviver se a receita cair X% e os custos subirem Y%? Qual é o nível de receita abaixo do qual o modelo deixa de ser sustentável? Quanto tempo de reserva de caixa a empresa tem se o cenário base não se confirmar nos primeiros seis meses? Essas perguntas, respondidas antes da decisão de investimento ou de reestruturação, produzem informação muito mais útil à gestão do que a análise de sensibilidade padrão, que varia uma variável por vez, mantendo todas as outras constantes. O papel do orçamento como instrumento de controle O orçamento empresarial é frequentemente tratado como um exercício anual de elaboração de metas, quando seu valor real está em outro lugar: na criação de um referencial que permite identificar desvios em relação ao planejado com velocidade suficiente para agir. Um orçamento bem estruturado não é apenas uma projeção do que vai acontecer. É um instrumento de controle que define o que deveria estar acontecendo em cada período e permite que a gestão identifique imediatamente quando a realidade diverge do planejado. Para que o orçamento cumpra essa função, ele precisa ser revisado com a mesma periodicidade com que as decisões operacionais são tomadas. Um orçamento anual revisado uma vez por ano produz informação que chega tarde demais para orientar as decisões que acontecem no meio do caminho. Valdoir Slapak estrutura processos de Budget and Forecast com revisões trimestrais e alertas de desvio, que permitem que a gestão ajuste o curso antes que o desvio acumulado comprometa o resultado do período. Alinhamento entre modelagem financeira e execução operacional Um dos problemas mais recorrentes em processos de planejamento financeiro é a distância entre o modelo elaborado pela área financeira e a realidade operacional que vai determinar se as premissas do modelo se confirmam. Modelos construídos sem o envolvimento das áreas operacionais tendem a trabalhar com premissas de produtividade, prazo e custo que não refletem o que a operação consegue efetivamente entregar. Quando esse alinhamento não existe, o modelo financeiro e a operação passam a trabalhar com referenciais distintos, o que compromete tanto a qualidade das projeções quanto a capacidade da gestão de identificar onde os desvios estão ocorrendo. A Fource Consultoria, onde Valdoir Slapak atua, conduz processos de modelagem financeira com envolvimento direto das áreas operacionais desde a fase de definição de premissas, justamente para garantir que o modelo reflita o que a empresa consegue fazer, e não apenas o que a área financeira projeta que deveria conseguir.