Uso contínuo de financiamento para cobrir despesas do dia a dia piora alavancagem financeira e liquidez 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Wilbert: "O que resolve é diminuir o tempo em que o dinheiro fica preso" — Foto: Divulgação A junção da taxa básica de juros (Selic) em dois dígitos, da inflação acima do teto da meta e da restrição ao crédito exige atenção redobrada das médias empresas na gestão do seu capital de giro. Para especialistas em finanças, o recurso precisa ser tratado como variável estratégica, e não mais como simples rotina de tesouraria. Análise da consultoria Safegold, feita com exclusividade para o Valor, mostra que o custo da liquidez deixou de ser um detalhe secundário para se tornar um fator crucial, que compromete a rentabilidade, pressiona margens e pode antecipar crises de solvência. O levantamento mostra que, enquanto linhas subsidiadas giram em torno de 13%, o crédito livre para médias empresas alcança taxas entre 24% e 26% ao ano. Nas operações de antecipação de recebíveis por meio de factorings, securitizadora e Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), o custo efetivo pode superar 34% ao ano. “A média empresa que trata o capital de giro como variável estratégica, não como tarefa de tesouraria, chega ao fim do ciclo com margem preservada e balanço sob controle. A que continuar financiando a operação inteira no desconto de duplicatas a 34% ao ano estará, sem perceber, dentro da janela de 18 a 24 meses que antecede a crise”, afirma Ezequiel Wilbert, sócio da Safegold. Para Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), a liquidez passou a influenciar diretamente a estratégia empresarial na última década por determinar quanto da riqueza gerada pela operação permanece no negócio. Nesse contexto, um dos cenários mais críticos é a dependência contínua de linhas de crédito caras para custear o funcionamento diário da empresa. A utilização contínua de crédito reduz o fluxo de caixa e aumenta o endividamento” “Nesse cenário, o custo financeiro deixa de ser eventual e transforma-se em estrutural”, diz El Khatib. “A utilização contínua de crédito reduz o fluxo de caixa disponível, aumenta o nível de endividamento e piora indicadores como cobertura de juros, alavancagem financeira e liquidez corrente”, ressalta. A análise da Safegold simula dois cenários com uma empresa que fatura R$ 120 milhões por ano, apresenta margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) projetada de 12% (R$ 14,4 milhões) e carregamento financeiro médio indexado a 24% ao ano. No primeiro cenário, a empresa opera com prazo médio de recebimento (DSO) de 45 dias, o que retém R$ 15 milhões em recebíveis, diz Wilbert. “Quando esse prazo se estica para 75 dias, mais R$ 10 milhões ficam imobilizados no ativo. O carregamento desse capital adicional queima R$ 2,4 milhões, o equivalente a 16,7% de todo o Ebitda do ano”, avalia. O outro cenário prevê a antecipação total dos recebíveis. Nesse caso, Wilbert ressalta que há ainda mais dificuldades financeiras, pelo comprometimento da margem, alcançando cerca de 42% de todo o Ebitda. “A empresa passa a antecipar 100% dos recebíveis para tapar o buraco de caixa. São R$ 25 milhões financiados (os R$ 15 milhões da base mais os R$ 10 milhões do alongamento), gerando juros totais de R$ 6 milhões no período, R$ 3,6 milhões sobre os R$ 15 milhões e R$ 2,4 milhões sobre os R$ 10 milhões adicionais.” No dia a dia da empresa, El Khatib diz que o efeito desse tipo de operação é o aumento da percepção de risco de mercado, influenciando o custo das captações futuras. O professor chama atenção para o ciclo de retroalimentação, em que a empresa paga juros elevados porque apresenta maior risco. “O endividamento aumenta as despesas financeiras. As despesas reduzem a geração de caixa. A redução do caixa exige novas dívidas, que tornam o crescimento ainda mais caro”, afirma El Khatib. O professor orienta as empresas a responderem quatro perguntas cruciais: Quanto caixa adicional será necessário? Durante quanto tempo esse caixa permanecerá imobilizado? Quanto custará financiá-lo? O retorno esperado será superior ao custo desse capital? “Se essas respostas não forem conhecidas, existe o risco de a empresa crescer apenas em tamanho, enquanto perde valor econômico. O verdadeiro crescimento sustentável é aquele financiado predominantemente pela própria geração de caixa da companhia”, ressalta El Khatib. Wilbert diz que não há uma fórmula sobre capacidade de endividamento ideal, porque esse cenário depende da margem e do tempo em que o dinheiro fica preso. “O custo do dinheiro, no período em que ele fica preso, precisa ser menor que o lucro que a operação gera nesse mesmo período. O lucro que entra aqui é o operacional, depois da depreciação. Quem faz essa conta pelo Ebitda superestima o que a empresa realmente tem disponível para pagar juros”, diz. A análise da Safegold mostra que o custo do crédito acessado pela média empresa no dia a dia acaba consumindo maior parte do resultado. “O que resolve é diminuir o tempo em que o dinheiro fica preso, porque isso muda quanto ela aguenta pagar”, diz Wilbert.