O acesso a capital de giro, especialmente de curto prazo, está em alta para as empresas brasileiras, saindo de R$ 19,9 bilhões em janeiro de 2025 para R$ 51,2 bilhões em maio de 2026. Nesse período, o capital de giro com menos de 365 dias subiu de R$ 9,2 bilhões para R$ 41,5 bilhões. Já os empréstimos de mais de 365 dias tiveram leve queda de R$ 9,6 bilhões para R$ 9 bilhões.PUBLICIDADEO movimento de alta da tomada de capital de giro, na comparação de um mês com o mesmo mês do ano anterior, vem se acelerando. Em maio deste ano, o salto foi de 205,8%.Na visão de Carlos Thadeu de Freitas, economista sênior da corretora BGC, esses números indicam que as empresas provavelmente estão se deparando com surpresas negativas em termos de vendas. Assim, tomam mais capital de giro de curto prazo para atender compromissos como pagar funcionários, adquirir insumos etc."Em situações assim, ou a empresa fecha, ou o dono aporta capital ou então vai atrás de empréstimos dos bancos", resume o economista.Ele nota que, em momentos melhores, as empresas conseguem acessar capital de giro de prazos mais longos.PublicidadeNo cenário que Freitas está enxergando, de queda de demanda, ele prevê que o fim da escala 6 por 1, obrigando as empresas a praticarem a escala 5 por 2, não vai levar a novas contratações. Provavelmente, na sequência de um primeiro momento em que tentam suprir as dificuldades aumentando a captação de capital de giro de curto prazo, as empresas vão até demitir, e tentar se desalavancar.Se, de fato, houver um movimento mais contundente de demissões, o consumo é afetado. Assim, para Freitas, os números de capital de giro indicam que o risco à frente é mais de recessão do que de inflação.Aloisio Campelo, superintendente de estatísticas públicas do FGV-IBRE, nota que a confiança empresarial vinha em alta desde setembro de 2025 (quando estava em 88,5) até chegar a 92,3 em fevereiro e março. Mas a guerra no Oriente Médio pode ter abortado a recuperação. O índice caiu a 91,4 em abril, e chegou a 92,7 em junho. O nível abaixo de 100 é considerado negativo para os índices de confiança.Em setores muito empregadores como serviços e comércio, o quadro da confiança está um pouco pior do que a média do índice empresarial. Em junho, a confiança dos serviços estava em 89,6, e a do comércio em 84,9.No geral, analisando o quadro formado pelos diversos índices de confiança e seus componentes, Campelo diz que "não há uma implosão, mas um esgotamento com nuances, com serviços e, especialmente comércio, num nível mais baixo".PublicidadeO Banco Central, portanto, enfrenta um dilema difícil. Se a interpretação de Freitas sobre a alta da tomada de capital de giro de curto prazo estiver correta, uma desaceleração mais forte da economia, com risco de recessão, pode vir a se materializar. Diante desse risco, cortes de juros poderiam ser indicados, mas há o problema da inflação e expectativas inflacionárias bem acima da meta.O quadro da confiança descrito por Campelo não chega a corroborar a visão de Freitas, mas tampouco sinaliza momentos róseos para a economia. E a vida do BC se torna mais difícil a cada dia.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/7/2026, sexta-feira.