Para Tiago Berriel, do BTG, mercado vai operar com cautela diante do que chamou de 'diversos choques', como cadeias produtivas desorganizadas após guerra no Oriente Médio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Tiago Berriel, ex-diretor do BC e atual estrategista da BTG Asset Management — Foto: Rogerio Vieira / Valor RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/06/2026 - 20:30 Tiago Berriel alerta sobre riscos econômicos no Brasil em 2024 Tiago Berriel, ex-diretor do Banco Central e estrategista do BTG, analisa a economia brasileira frente a choques como a guerra EUA-Irã, desorganização das cadeias produtivas, política fiscal expansiva e fenômenos como o El Niño. Ele alerta que o impulso fiscal de R$ 215 bilhões em ano eleitoral compromete os esforços da política monetária, aumentando a inflação e exigindo cautela dos mercados. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Ex-diretor do Banco Central (BC) e atual estrategista-chefe da BTG Asset Management, Tiago Berriel, avalia que o anúncio de um acordo para o fim da guerra entre Estados Unidos e Irã não deve levar a autoridade monetária a “baixar a guarda” na política de juros. Em entrevista ao GLOBO, ele também menciona a questão fiscal brasileira e outros fatores internos que devem influenciar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que define nesta semana a taxa básica de juros, a Selic, principal instrumento do BC para convergir a inflação à meta. Como a guerra afetou o Brasil ao longo desses cem dias? O choque do petróleo reflete nas economias de maneira diferente. Na Europa, há recessão e aumento da inflação. Aqui, o choque tende a ser inflacionário, mas estimula a atividade, porque somos exportadores líquidos de petróleo. E o choque inflacionário não gera recessão, pois gera efeito positivo nas contas externas e riqueza. Agora, há o risco do preço de energia se propagar para outros preços, causando um juro mais alto por mais tempo. Mas isso gera apreciação cambial, por conta do carry trade (diferença entre os juros entre economias desenvolvidas e a nossa). Para o país, o choque da guerra não é o pior, mas é ruim na perspectiva de inflação. Por que o anúncio do acordo para acabar com o conflito no Oriente Médio teve pouco impacto aqui ontem? Porque tem muita coisa acontecendo na inflação para além da guerra. Tivemos dados de inflação corrente mais fortes e com uma composição pior. Observamos também dados de atividade robustos, mercado de trabalho aquecido e um estímulo fiscal superior ao que se antecipava. Tivemos também um aumento do risco do El Niño, que cria pressão sobre preços de alimentos, e o debate da escala 6x1, que é um choque de custo no setor de serviços e aumenta o salário por hora. Com aumento de custo, uma parte é repassada para preços. A gente “engravida” as expectativas de inflação. Como o senhor avalia a piora nas projeções de juros e o peso da participação dos gastos públicos nas revisões? O BTG, inclusive, prevê que este ano só haverá mais um corte na taxa básica (Selic), para 14,25%, na reunião desta semana do Copom. A mudança da perspectiva de juros começou com o choque do petróleo, que gerou uma desancoragem de expectativas, mas você vê algo que só aprofundou o problema. Há muitos elementos para uma revisão. O fiscal torna a expectativa inflacionária mais difícil. Veja, por exemplo, toda essa política creditícia, de desembolsos que estimulam a atividade. E é uma conta difícil de precisar. Mas é clara a direção de que estamos tendo mais estímulos. O impulso fiscal neste ano vai ser de mais de 1% do PIB, o que desfaz o sacrifício da política monetária. A gente “engravida” as expectativas de inflação. O mercado seguirá volátil? Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. São muitos os choques: a guerra, as cadeias produtivas desorganizadas, o fiscal, a escala 6x1, El Niño. Do ponto de vista de política monetária, deve-se ter cautela extra, porque a guerra “acabou” várias vezes nos últimos cem dias. E o mercado também terá cautela. Tem muita incerteza política no debate, também. O mercado e os agentes econômicos precisam de cautela. Contudo, o Brasil ainda é um país geopoliticamente seguro e com preços atraentes. Existe espaço para atração de capital, e observamos um sólido interesse de investidores estrangeiros no país. Basta a gente não fazer nada muito errado.