Banco Central quis evitar montanha-russa nos juros e esticou prazo para levar inflação à metaCopom ficou em situação de ‘perde-perde’, sem saídas fáceis para a condução da política monetária. Crédito: EstadãoGerando resumoOs juros elevados estão pesando cada vez mais no caixa das empresas brasileiras. Um levantamento do Centro de Estudos de Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), mostra que, em abril, o custo médio dos juros pagos sobre o total das dívidas das companhias abertas e fechadas chegou a 16,79% ao ano, ante 14,17% no mesmo mês de 2024.PUBLICIDADEO levantamento considera os juros cobrados sobre todo o estoque de dívidas das empresas, e não apenas sobre o custo de captação atual. Os cálculos também desconsideram ganhos de Imposto de Renda para as empresas que se inserem na tributação por lucro real.A alta do custo das dívidas tem relação com um aumento recente dos juros cobrados para as empresas receberem crédito. Em abril deste ano, os juros para as debêntures que foram emitidas no mês, um dos mecanismos mais comuns utilizados pelas empresas para se financiarem no mercado, ficaram em média em 13,68%, contra 11,39% de abril de 2024.PublicidadeBrasil não está sozinho no aumento da dívida, mas isso não é licença gastarRelatório do Instituto de Finanças Internacional (IIF) faz novo alerta sobre o aumento do endividamento. Crédito: Alvaro GribelEsses valores mais altos são consequência da subida da taxa Selic nos últimos tempos, que saltou de 2% ao ano, em março de 2021, para 15% em julho de 2025, como uma forma de o Banco Central tentar controlar a inflação. Após sua última reunião, na quarta-feira, 17, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa em 0,25 ponto porcentual pela terceira reunião seguida, para 14,25% ao ano.O relatório do Cefeb conclui ainda que a subida do custo de financiamento para as empresas “alerta para um processo de estrangulamento financeiro”, tornando o acesso a recursos ainda mais difícil. Segundo o coordenador do centro de estudos, Roberto Troster, a situação está se agravando.A Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 80,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em março de 2026, enquanto as projeções de mercado indicam que esse porcentual poderá chegar a 94,6% do PIB até 2031. Também em março, a despesa nominal com juros da dívida pública atingiu 7,5% do PIB, o maior patamar da série analisada pelo Cefeb. “O governo demanda mais liquidez, e torna mais arriscada a compra de sua dívida. Por isso, o mercado cobra caro para fazer esse investimento, e sobra menos dinheiro para o restante da economia”, afirma. “Se ele pode emprestar para o governo a taxa mais alta, o mercado prefere direcionar os recursos para ele, já que comparado com emprestar para uma empresa ou para uma pessoa física o risco é menor.”PublicidadeIsso tem causado na economia brasileira o efeito chamado de “crowding out”, que pode ser traduzido do inglês como efeito deslocamento. O conceito trata de um fenômeno macroeconômico que ocorre quando o aumento dos gastos ou empréstimos do governo reduz ou “expulsa” o investimento do setor privado. No fim das contas, com o aumento dos gastos públicos, o governo tende a emitir mais títulos da dívida, provocando a elevação da taxa de juros e tornando o crédito mais caro para empresas e famílias, com juros quase que proibitivos. “Vai piorar ainda mais. Cada vez fica pior para os emprestadores arriscarem no setor privado”, diz Troster.Quem consegue adiar a tomada do crédito deve fazer isso. “As empresas não têm como evitar tomar algum crédito. Elas precisam pagar dívidas passadas, e o crédito é um capital parcial relevante”, diz Troster. “Mas, ele é muito relacionado ao aumento da Selic, e, nessas condições, acaba aumentando o custo total das empresas, e os bancos exigem delas pagamentos com prazos encolhidos e mais garantias.”PublicidadeNesse cenário, muitas empresas têm buscado evitar planejar novos investimentos. A Trivia Trens, concessionária de linhas férreas do grupo Comporte, da família Constantino, tradicional no transporte por ônibus e fundadora da empresa aérea Gol, tem investimentos de R$ 16 bilhões para os projetos que realiza no momento. Ela assumiu a gestão das linhas 11-Coral, 12-Safira, 13-Jade de São Paulo e é responsável pelo serviço Expresso Aeroporto, arrematados em leilão realizado em março de 2025 e que dará o direito de operação e expansão do sistema até 2050.“Esses investimentos já estão bem resolvidos, mas confesso que a gente está cada vez mais preocupado com o cenário de crédito para fazer novos investimentos. Para tomar recursos, o projeto precisa fazer muito sentido e trazer uma capacidade de otimização muito grande”, afirma o presidente da Trivia, Guilherme Bastos. “Em setembro do ano passado, os bancos falavam em crédito no valor de CDI mais 1,5% e agora se fala de CDI mais 3%.”PublicidadeCopom, do Banco Central, reduziu os juros em 0,25 pontos, para 14,25% ao ano Foto: Adobe StockPUBLICIDADEIsso, segundo ele, pode evitar que novas concessões ofertadas pelos governos não tenham muito interessados, ou empresas com capacidade de executar os serviços. Muitas companhias, mesmo de grande porte, relatam que os empréstimos bancários têm sido ofertados na casa dos 20% de juros anuais.Com isso, a margem de lucro dos projetos precisa ser muito alta. “Um grande projeto ferroviário saindo do zero deixa a empresa alavancada por oito anos. Se ela pega R$ 100 milhões de crédito a 20%, ela precisa pagar R$ 20 milhões por ano de juros”, diz Bastos.O diagnóstico do economista Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), para os juros elevados no Brasil são as regras ligadas ao gasto obrigatório da União, que, por lei, é forçada a ter um gasto público que cresça acima da expansão da economia. Publicidade“Isso pressiona a base material”, diz Pessôa. “Quando a economia está com desemprego baixo (como atualmente), pressiona mais.”Efeitos são maiores para empresas menoresOs efeitos desse cenário não atingem todos os agentes econômicos da mesma forma. Enquanto grandes companhias conseguem acessar o mercado de capitais e diversificar suas fontes de financiamento, micro, pequenas e médias empresas permanecem dependentes do crédito bancário tradicional. Nesse segmento, as taxas de recursos livres alcançaram 19,4% ao ano em março de 2026.A diferença também aparece nos indicadores de inadimplência. Entre as micro, pequenas e médias empresas, a taxa atingiu o recorde histórico de 6%, enquanto nas grandes companhias permaneceu em apenas 0,6%. Entre as pessoas físicas, a inadimplência alcançou 7%.Outro sinal do agravamento das condições financeiras está no número de empresas inadimplentes. Segundo os dados compilados pelo estudo, o total de CNPJs “negativados” passou de 5,95 milhões em 2022 para 8,8 milhões no início de 2026, um aumento de quase 3 milhões de empresas em apenas quatro anos.Selic alta por muito tempoA alta da taxa Selic é um fenômeno que tem marcado esta década. A partir da pandemia de covid-19, em 2020, o governo buscou estimular a economia por meio de uma política fiscal expansionista, que se estendeu durante as eleições presidenciais de 2022 e continuou durante todo o novo governo do presidente Lula.PublicidadeA série analisada pelo Cefeb mostra que em janeiro de 2017 o custo médio dos juros das debêntures emitidas eram de 12,46%. Ele foi caindo, até atingir, em julho de 2020, no começo da pandemia, 5,77%. Naquele ano, a taxa Selic chegou a ser estabelecida em 2%, para combater os efeitos de queda econômica por conta do afastamento social.Com o aumento subsequente da inflação e a subida da Selic até 15% para tentar controlá-la, os juros das debêntures foram aumentando até chegar a um pico de 15,37%, em dezembro de 2024. Depois de uma queda até fevereiro deste ano, eles voltaram a subir em março e abril.Leia tambémEndividamento em alta, gastos sem controle: próximo governo vai encarar desafio nas contas públicasRegras criadas entre 2023 e 2025 elevaram Custo Brasil em R$ 146,9 bi ao ano, aponta estudoTesouro cancela leilão de títulos, e mercado vê estratégia para não referendar taxas elevadasO cenário também prejudica o próprio setor público. “O governo já gasta mais em juros do que o dobro de toda a soma de gastos com educação, saúde e Justiça. É um cenário fiscal muito difícil. Vai ser necessário fazer um esforço para melhorar isso, o que é improvável acontecer num ano eleitoral”, diz Troster. “Mas, no primeiro ano de um novo governo, eles costumam aproveitar para tomar as medidas mais impopulares.”PublicidadePara reverter o cenário complicado, o esforço fiscal deve incluir uma mudança mais estrutural como a condução de uma reforma administrativa, que deve ser necessária independentemente de quem vencer a eleição presidencial deste ano. Além disso, Troster defende outras ações mais rápidas. “É preciso modificar a política de crédito brasileira, que é ruim. Não existem regras de precificação, dá para promover uma redução de compulsórios, que são muito altos, e precisa diminuir a tributação que incide sobre o crédito”, afirma. “Não faz sentido tributar crédito com juros tão caros. Acaba se arrecadando menos ainda, por que isso trava o crédito.”Segundo o economista, uma situação similar de disparada de juros, ainda que num patamar mais preocupante, aconteceu na época do Plano Collor, no início dos anos 1990, e que acabou levando a uma perda de riqueza muito grande, com queda do PIB e a disparada do desemprego. “Mas, agora, temos algumas diferenças fundamentais em relação a aquela época. Primeiramente, temos um mercado de capitais mais dinâmico, que permite captar mais capital”, afirma. “Também se consegue dividir os pagamentos por mais parcelas e por mais tempo.”De fato, uma alternativa para a tomada de crédito nos bancos tem sido a captação no mercado financeiro. O relatório do Cefeb identifica uma transformação estrutural no financiamento corporativo brasileiro. O estoque total de financiamento às empresas ultrapassou R$ 5,2 trilhões em março de 2026, crescimento próximo de 60% em quatro anos. O avanço foi sustentado principalmente pelo mercado de capitais doméstico, que atingiu R$ 2,53 trilhões em instrumentos como debêntures, CRIs e CRAs, ganhando espaço em relação ao crédito bancário tradicional.Publicidade
Juro alto eleva custo da dívida, sufoca caixa das empresas e reduz espaço para investimento privado
Estudo do Cefeb revela que o custo médio dos juros sobre dívidas empresariais chegou a 16,79% ao ano, agravando a situação financeira das companhias
Juros sobre dívidas atingem 16,79% ao ano (vs 14,17% em 2025), impulsionados pela Selic a 15%; crowding out do débito público (80,1% PIB) afasta crédito privado, tornando empréstimos proibitivos (20% ao ano) e sufocando investimentos corporativos.









