Juros elevados, erros de gestão e mudanças no comportamento do consumidor estão entre os fatores apontados para a forte desvalorização das ações de varejistas nos últimos anos. Levantamento da consultoria Elos Ayta, realizado a pedido do blog, mostra que, das 15 empresas analisadas, dez acumulam perdas superiores a 50% em relação aos seus máximos históricos. Os casos mais emblemáticos são Casas Bahia (-99,78%), Lojas Marisa (-99,49%) e Magazine Luiza (-98,13%). Em crise, a Lojas Americanas teve queda -99,96%. — Os dados do setor de varejo revelam um aspecto marcante: grande parte das companhias atingiu seus máximos históricos entre 2020 e 2021, período marcado pela pandemia, pela forte expansão da liquidez global, pelos juros reduzidos e pela aceleração do consumo por canais digitais. Empresas como Magazine Luiza, Casas Bahia, Grupo SBF, Lojas Renner e Quero-Quero registraram seus recordes nesse intervalo, mas desde então acumulam perdas expressivas, em alguns casos superiores a 90%, evidenciando a forte correção sofrida pelo setor com a normalização da atividade econômica e a mudança no cenário de juros — afirma Einar Rivero, CEO da Elos Ayta. Segundo Ulysses Reis, professor de varejo da Strong Business School (SBS) e da FGV, muitas empresas ampliaram operações e assumiram dívidas durante o ciclo de juros baixos, apostando na continuidade de um ambiente favorável ao crédito e ao consumo. - Muitas se endividaram ou fizeram negócios alavancados quando a Selic estava a 2%, essas empresas cobravam em média 9% ao mês de juros chegando a 9,99%. Vendiam a prazo, cobriam seus custos e ganhavam. No momento, em que a Selic passa dos 14%, 15%, é só prejuízo. O cliente está pagando mais barato do que custa para a empresa hoje fazer estoque. É uma situação assustadora que levou muitas dessas empresas a ter um passivo, uma grande dívida. Além da piora das condições financeiras das companhias, o setor passou a enfrentar uma demanda mais fraca. O elevado endividamento das famílias reduziu a capacidade de consumo, especialmente de bens considerados não essenciais. Os consumidores com renda pressionada tendem a priorizar gastos essenciais, deixando em segundo plano segmentos como e-commerce e varejo de moda, salienta Lucas Barbosa, analista da Ativa Investimentos. O caso Magazine Luiza A trajetória do Magazine Luiza resume boa parte dos desafios enfrentados pelo setor. Além da mudança no cenário de juros, a companhia não entregou o crescimento esperado pelo mercado após o forte avanço registrado durante a pandemia. — O mercado precificava um crescimento que a empresa não entregou — afirma Barbosa. Segundo Reis, parte das expectativas criadas em torno da transformação digital e de novos modelos de negócio também acabou frustrada. — Prometeu-se muita coisa em termos de transformação do negócio e de resultados positivos, mas isso não se concretizou. O resultado foi uma forte correção das ações e um aumento das dúvidas do mercado sobre a capacidade da companhia de retomar o crescimento. Além disso, Lucas Barbosa, da Ativa, observa que, embora os juros elevados tenham pesado sobre todo o varejo, a Magalu enfrenta principalmente dificuldades para expandir as vendas em um ambiente de forte concorrência com empresas como Mercado Livre, Shopee, Amazon e AliExpress. - Ela não é uma empresa excessivamente alavancada em comparação com outras do setor. A principal dificuldade, quando olhamos o balanço, está na geração de receita e no crescimento das vendas. O que esperar daqui para frente O setor de varejo passa por uma transformação estrutural, impulsionada por mudanças no comportamento do consumidor, no perfil de estoques e nos canais de distribuição, o que pressiona diretamente os modelos tradicionais de operação, salienta o professor Ulysses Reis. Segundo ele, as empresas estão reduzindo estoques para evitar custos financeiros elevados e riscos de encalhe, adotando formatos como o showroom ou mostruário, em que as lojas passam a manter menos produtos disponíveis e acionam a produção ou o envio apenas após a compra. Esse movimento, diz, ajuda a reduzir custos, mas ainda não foi plenamente incorporado pelas grandes varejistas. Paralelamente, canais diretos entre fabricantes e consumidores, além de novos modelos logísticos, têm enfraquecido o papel do varejo intermediário. Para Ulysses, esse conjunto de mudanças exige uma reinvenção do setor, que muitas empresas ainda não conseguiram implementar de forma eficaz. - Tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo. O modelo tradicional do varejo vai ter que mudar, mas boa parte dessas empresas grandes ainda não conseguiu fazer essa transição. Já na economia, para João Debom, sócio da Alude Capital, não há perspectiva de alívio rápido para o setor. Isto porque o ciclo de queda de juros deve ser gradual e, enquanto a Selic permanecer em patamares restritivos, o varejo segue sob pressão. Empresas mais alavancadas continuam com custo financeiro corroendo o resultado, e o consumidor ainda enfrenta crédito caro e renda comprimida. - O endividamento das famílias brasileiras está entre 47% e 49% da renda, com o serviço da dívida consumindo cerca de 29% do orçamento mensal. Nesse cenário, o consumo de bens não essenciais (vestuário, eletrodomésticos, eletrônicos) é o primeiro a ser sacrificado. Magazine Luiza reportou resultados fracos no primeiro trimestre, com pressão contínua no e-commerce. O setor só tende a reagir com consistência quando houver clareza real sobre a trajetória dos juros. Enquanto isso não acontece, o varejo segue sendo, na prática, uma aposta no calendário do Banco Central, e esse é um risco que poucos investidores precificam corretamente. Nem todas seguiram o mesmo caminho Um ponto destacado por Einar Rivero, CEO da Elos Ayta. é que empresas que estrearam na Bolsa após a pandemia apresentam um comportamento distinto na bolsa. Automob, C&A, Track & Field, Vivara e Grazziotin registraram seus máximos históricos em 2024, 2025 ou mesmo em 2026, refletindo um contexto diferente daquele observado durante o ciclo de euforia de 2020 - Isso sugere que os recordes mais recentes dessas companhias foram construídos em um ambiente de juros elevados e maior seletividade dos investidores, tornando suas cotações máximas mais associadas a fundamentos específicos de cada negócio do que a um movimento generalizado do mercado.
Ações das empresas de varejo viram pó, com perdas de 99%
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