Durante o julgamento, decano do STF faz uma série de paralelos com a Operação Lava-Jato, afirmando que investigados e familiares de alvos eram pressionados para delatar O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou nesta terça-feira (16) pela prisão domiciliar de Henrique Vorcaro e pela soltura de Felipe Vorcaro, respectivamente pai e primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Ele divergiu de André Mendonça, relator do caso, que se manifestou pela prisão da dupla e foi acompanhado por Luiz Fux quando o julgamento começou, em maio. A análise das prisões começou no mês passado. Na ocasião, Mendonça e Fux votaram pela manutenção das prisões. O decano do STF, no entanto, paralisou o julgamento com um pedido de vista. Ele apresentou o voto nesta terça. Pouco antes do julgamento, Mendonça tirou o sigilo das investigações, medida que é vista como uma tentativa de marcar posição e garantir que conseguirá maioria na Segunda Turma. Há dúvida, no entanto, se Mendonça sairá mesmo vencedor. Isso porque não se sabe como votará Nunes Marques. Se ele acompanhar Gilmar, haverá empate, o que beneficia os investigados. Dias Toffoli, que também integra a Segunda Turma, não deve votar, pois tem se declarado suspeito em todos os julgamentos ligados ao Master. Ele teve o nome ligado a suspeitos de participação no esquema de fraude no banco. Voto de Gilmar Gilmar afirmou que a Polícia Federal (PF) não apresentou provas suficientes que justifiquem a prisão de Henrique Vorcaro. De acordo com ele, houve apenas “inferências” de que o pai de Vorcaro teria operador financeiro, demandante e beneficiário do grupo “A Turma”, supostamente responsável por ameaçar e intimidar adversários. “Apesar da peremptória afirmação da PF, a autoridade policial não foi capaz de precisar episódios concretos de que Henrique teria demandado a prática de ilícitos ao seu favor. Quando afirma que está comprovado que Henrique demandou serviços ao grupo A Turma, esta conclusão, ao meu ver, se dá por meio de inferências acerca de mensagens de investigados”, disse. Gilmar também afirmou que as suspeitas contra Henrique são menos graves do que a de outros investigados que estão livres ou que cumprem medidas cautelares diferentes da prisão. “Os elementos indiciários reunidos em seu desfavor não se mostraram mais expressivos ou graves que o de outros investigados”. O ministro considerou o mesmo com relação ao primo de Vorcaro. Para ele, a PF não apresento “indícios que justificasse” a prisão, o que impõe “o relaxamento” e a imposição de “medidas cautelares diversas”. Gilmar, no entanto, se manifestou pela imposição de medidas cautelares diversas da prisão, como proibição de contato com outros investigados e de mudar de residência sem prévia autorização, além do comparecimento periódico em juízo. Novos documentos e ‘semelhança com Lava-Jato’ Gilmar criticou os novos documentos tornados públicos por Mendonça nesta terça. De acordo com ele, os demais integrantes da Segunda Turma não tinham acesso aos novos dados, o que pode representar “prática abusiva” por parte de Mendonça. “A juntada de informações na data de hoje permite vislumbrar práticas que podem se revelar abusivas, como o cerceamento ao direito de defesa, pela omissão de elementos de prova às defesas do investigado. Nem mesmo membros do colegiado tiveram acesso ao conjunto probatório usado para dar lastro a este referendo”, disse. Gilmar fez ainda uma série de paralelos com a Operação Lava-Jato, afirmando que investigados e familiares de alvos eram pressionados para delatar. Segundo ele, a condução das investigações do Master e a atuação de Mendonça se parecem com uma Lava-Jato, ainda que com "nova roupagem". “É com certa incredulidade e alguma tristeza que registro que as providências adotadas no caso têm semelhanças com iniquidades da Lava-Jato”, afirmou Gilmar em seu voto. O caso Ao decretar as prisões, Mendonça afirmou que relatórios de inteligência financeira (RIFs) do apontaram movimentações de R$ 18,4 bilhões de 2019 a 2026, em que Felipe seria o beneficiário central de fluxos financeiros vinculados ao primo, Daniel Vorcaro. Ainda fala que houve a tentativa de desvincular a origem formal dos valores movimentados, identificado por meio de mensagens enviadas que citam Mendonça ainda ressaltou os indícios de irregularidades envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ao qual Felipe teria feito a venda de uma empresa para a sua família com deságio de R$ 12 milhões, além de ser o responsável por operacionalizar os repasses mensais de R$ 300 a R$ 500 mil ao senador. Já Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, é apontado como um dos principais operadores financeiros, demandantes e beneficiários do núcleo criminoso batizado de “A Turma”, que teria sido usado para ameaçar e intimidar adversários. A PF encaminhou neste mês um novo relatório mostrando que ele teria seguido pagando os integrantes da “A Turma” e acompanhado as tratativas para comprar o silêncio da família de Felipe Mourão, conhecido como "Sicário", que se matou após ser preso pela PF. Sicário também atuava para A Turma e foi preso no âmbito da Compliance Zero. O nome do pai de Vorcaro já havia aparecido na segunda fase da Compliance Zero. Na ocasião, Mendonça afirmou que foram bloqueados R$ 2,2 bilhões em uma conta de Henrique Vorcaro junto à antiga Reag. Eugenio Pacelli, que defende Henrique Vorcaro, disse ao Valor que foi surpreendido pelo novo relatório da PF enviado a Mendonça e tornado público nesta terça. “A inclusão do relatório na formação do convencimento unicamente do relator viola o direito de defesa”, afirmou. A Defesa de Felipe Vorcaro não respondeu. Ministro Gilmar Mendes em sessão da Segunda Turma do STF — Foto: Gustavo Moreno/STF