AGilberto Freyre são atribuídos alguns mitos populares. Mas a tese de que a superioridade do futebol brasileiro se deve à miscigenação —ou, mais precisamente, ao "mulatismo"— não está entre eles. Provavelmente deveria estar. Em artigo intitulado "Foot-ball mulato", em sua grafia original, denotando as origens inglesas ainda muito presentes, Freyre escreveu: "Uma das condições dos nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo; mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros".
O contexto era a Copa do Mundo de 1938, quando o país ficou em terceiro lugar e Leônidas foi eleito o melhor jogador. Era também o início da ditadura do Estado Novo que viria a persegui-lo e a confiscar sua correspondência.Freyre, que viria a ser consagrado como o pai do mito da democracia racial, faz dura crítica ao racismo do Estado brasileiro: "a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por muito tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor todo-poderoso do Itamaraty. Nada de pretos nem de mulatos chapados, só brancos ou então mulatos tão claros que parecessem brancos. Ou, quando muito, caboclos, deviam ser enviados ao estrangeiro mulatos do tipo do ilustre Domício da Gama, a quem Eça de Queiroz costumava chamar na intimidade de mulato cor-de-rosa".








