Lembro-me de ter lido, em 2006, a reportagem desta Folha sobre o livro "Forty Million Dollar Slaves" —escravos de US$ 40 milhões—, do sociólogo, ex-jogador de basquete e comentarista americano William C. Rhoden. Na obra, ele analisa a condição dos jogadores negros no esporte do seu país, em especial no basquete.

Era raro encontrar, naquela época, uma abordagem como aquela na imprensa. Eu, que era secretária em uma empresa no porto de Santos, havia trancado a faculdade de jornalismo e sonhava em voltar à universidade, tomei aquela leitura como inspiradora.

A reportagem de Guilherme Roseguini apresentava a tese central de Rhoden. Observando o esporte profissional americano, o sociólogo argumentava que este havia aperfeiçoado a lógica da "plantation": os atletas negros eram celebrados dentro das quatro linhas, enquanto cargos de técnicos, dirigentes, proprietários de clubes e formuladores das políticas esportivas permaneciam —e ainda permanecem— sob controle branco. Mudava a remuneração, mas não a lógica senhorial.

Se as diferenças entre o esporte profissional americano e o brasileiro são enormes em aspectos como poder econômico, infraestrutura e publicidade, a distribuição racial do poder permanece semelhante.