Estava assistindo o primeiro jogo do mata-mata da Copa e pensei as mesmas coisas que vocês: qual seria um nome melhor do que 16 avos de final e por que o técnico da África do Sul é branco se os jogadores são negros? É a mesma questão que pensamos vendo o jogo contra o Haiti.PUBLICIDADEAcontece com seleções africanas, como de Congo, Gana e Senegal, mas há estrutura parecida também nas de Colômbia, Equador, Curaçao, Panamá e França. A provocação me veio de Andre Leite, no X: “O futebol meio que mostra como o racismo funciona”. Seu argumento é de que o impacto de um jogador no campo é observável, o que diminuiria a discriminação, vez que o resultado da sua atuação pode ser reconhecido.Isso não aconteceria com os técnicos, apesar de serem em geral ex-jogadores. O Dembélé faz hat-trick e mesmo a performance de zagueiros pode ser medida e comparada. A escolha de um técnico depende mais de imagem e relacionamentos?O português Carlos Queiroz, técnico de Gana Foto: Charly Triballeau/CHARLY TRIBALLEAUTivemos essa polêmica no próprio futebol brasileiro, quando Andrade foi o 1º técnico negro a vencer o Campeonato Brasileiro. Foi com o Flamengo de 2009, após assumir como interino no meio da competição. Está há quase dez anos sem treinar um time e o último foi o Petrolina.A provocação de Andre veio depois de eu me impressionar com o jogo entre Holanda e Suécia: seis gols, todos de jogadores negros, cujos pais imigraram de Gana, Togo, Suriname e Camarões. Uma amiga professora de história fala em “comoditização” do migrante: seu talento e dedicação seriam celebrados nas competições de verão e rejeitados no resto do ano.PublicidadeCom tantos jogadores negros, inclusive nas seleções europeias, por que não há técnicos? Outro amigo especula que pode haver um componente geracional, de forma que, agora, com tantos excelentes jogadores em equipes de ponta, será inevitável no futuro que assumam posições de liderança.Leia tambémA bet do Zema: qual seria o efeito de ‘premiar’ quem saísse do Bolsa-Família?Botijão de gás, Ozempic e carteirinhas rendem fotos melhores do que políticas públicas complexasÉ possível também pensar nos modelos matemáticos baseados em normas sociais: se não há muito de um grupo em uma ocupação X, pessoas desse grupo não investem nessa ocupação, gerando um ciclo vicioso de baixa representatividade (e perda de produtividade para a economia). É como a antiga discussão sobre meninos negros não se verem como violinistas, mas se imaginando famosos como rappers.O loop é uma explicação mais neutra, entre duas visões mais apaixonadas: a da discriminação e a do mérito. Nessa lógica, a predominância de técnicos brancos em seleções negras teria menos a ver com racismo ou esforço e mais a ver com os futebolistas simplesmente não terem referências para se imaginarem como técnicos.Boas décimas sextas de final!