Parte da beleza do futebol está em sua imprevisibilidade. Na Copa do Mundo de 2026 já vimos Marrocos empatar com o Brasil, pentacampeão mundial e a Austrália superar as expectativas ao derrotar a Turquia. Mas poucas surpresas superarão o fato de a seleção de Cabo Verde, classificada em 67º lugarno ranking da Fifa no início do torneio, ter empatado em 0 a 0 com a Espanha – a favorita de muitos especialistas ao título. Mas o que influencia se uma equipe vence, empata ou perde? É claro que a qualidade dos jogadores e da comissão técnica é importante. E avanços recentes na análise esportiva, incluindo métricas de geolocalização de jogadores em tempo real, levaram à adoção de decisões baseadas em dados durante as partidas. Os principais times de futebol dependem cada vez mais de big data e algoritmos preditivos para obter uma vantagem competitiva. Mas a psicologia do esporte também desempenha um papel importante. E é aí que eu entro. Tenho paixão por esportes em geral e pelo futebol em particular – é o esporte que pratiquei desde criança na Alemanha. Agora, como psicólogo esportivo e diretor do Global Sport Leadership Solutions Lab da Universidade Drexel, estudo como jogadores e treinadores podem lidar com o caos em campo para melhorar estrategicamente o desempenho e vencer. A seguir, destaco vários princípios psicológicos modernos essenciais para todas as 48 seleções que disputaram a Copa do Mundo de 2026 no México, Canadá e EUA. Cinco passos para o sucesso no futebol Perturbação – É verdade em todos os esportes, e certamente no futebol moderno, que a equipe vencedora se beneficiará ao perturbar seu adversário. Táticas disruptivas podem incluir faltas táticas agressivas, contra-ataques em alta velocidade que pegam o adversário desprevenido, jogadas ensaiadas enganosas que criam um caos organizado, táticas de alta pressão que forçam os adversários a cometer erros e provocar os jogadores adversários. Desorganizar a estrutura e o ritmo do time adversário é tanto uma mentalidade quanto uma estratégia que pode levar a oportunidades de gol. Um time capaz de interromper o fluxo do adversário muitas vezes consegue superar uma desvantagem técnica ou desmoralizar times mais fracos. França x Noruega: veja as fotos da partida 1 de 20 Seleção francesa celebra após hat-trick de Dembele — Foto: FRANCK FIFE / AFP 2 de 20 Ousmane Dembele, camisa 7 da França, comemora o primeiro gol na partida — Foto: Getty Images via AFP X de 20 Publicidade 20 fotos 3 de 20 Maxence Lacroix, da França, e Jorgen Strand Larsen, da Noruega — Foto: Jewel SAMAD / AFP 4 de 20 Ousmane Dembele, camisa 7 da França, comemora o primeiro gol na partida — Foto: Getty Images via AFP X de 20 Publicidade 5 de 20 Noruega e França jogam no Estádio de Boston pela Copa do Mundo — Foto: Buda Mendes / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 6 de 20 Seleção francesa no jogo desta sexta-feira (26) — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP X de 20 Publicidade 7 de 20 Seleção norueguesa na partida desta sexta-feira (26) — Foto: Jewel SAMAD / AFP 8 de 20 Kylian Mbappe na partida contra a Noruega em Massachusetts — Foto: Getty Images via AFP X de 20 Publicidade 9 de 20 Início da partida no Boston Stadium, em Massachusetts — Foto: Getty Images via AFP 10 de 20 Desire Doue, camisa 20 da França, e Leo Ostigard, camisa 4 da Noruega disputam a bola — Foto: Getty Images via AFP X de 20 Publicidade 11 de 20 Kylian Mbappe e Leo Ostigard — Foto: Getty Images via AFP 12 de 20 Fredrik Aursnes e Michael Olise — Foto: Getty Images via AFP X de 20 Publicidade 13 de 20 Ousmane Dembele celebra o segundo gol da França — Foto: Jewel SAMAD / AFP 14 de 20 Thelo Aasgaard celebra gol da Noruega diante da França — Foto: Buda Mendes/Getty Images via AFP X de 20 Publicidade 15 de 20 Thelo Aasgaard, camisa 19 da Noruega, comemora com Andreas Schjelderup (21) após marcar o primeiro gol da equipe na partida contra a França pela Copa do Mundo de 2026, no Boston Stadium — Foto: Buda Mendes / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 16 de 20 Theo Hernandez e Henrik Falchener disputam a bola — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP X de 20 Publicidade 17 de 20 Ousmane Dembele e Kylian Mbappe celebram após terceiro gol da França — Foto: FRANCK FIFE / AFP 18 de 20 Michael Olise, camisa 11 da França, durante a partida contra a Noruega — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP X de 20 Publicidade 19 de 20 Mike Maignan, goleiro francês, defende pênalti da Noruega batido por Jorgen Strand Larsen — Foto: Getty Images via AFP 20 de 20 Thelo Aasgaard e Aurelien Tchouameni disputam a bola — Foto: Getty Images via AFP X de 20 Publicidade Aptidão de atenção – Marcar gols no futebol internacional é difícil. Um grande atacante vale seu peso em ouro. Ele não apenas realiza dribles excepcionais e usa de habilidades espetaculares no um contra um. Ele também tem uma forte “capacidade de atenção”, que exige eficiência cognitiva e ética de trabalho para se posicionar de forma a marcar gols. Esses jogadores são celebrados por seu “sangue frio” e habilidade com a bola, mas é sua inteligência psicológica que os torna especiais. Uma das primeiras habilidades a falhar sob pressão é a capacidade de concentração. O artilheiro por excelência não “congela”. Pode-se chamar isso de “nervos de aço”, mas é apenas uma metáfora para gerenciar múltiplas fontes de atenção de forma simultânea e eficiente. Atacantes como o inglês Harry Kane, o francês Kylian Mbappé e o norueguês Erling Haaland mantêm o controle da atenção sob pressão. Eles se concentram no momento em que mais importa e alternam entre tarefas com naturalidade. Divagação mental controlada – A divagação mental é um afastamento espontâneo do ambiente imediato. Nos esportes, a divagação mental costuma ser vista como algo negativo, pois a falta de atenção em um momento crucial pode levar ao desastre. Mas é difícil manter o foco por mais de 90 minutos durante uma partida de futebol. E novas evidências de neuroimagem sugerem que, nos momentos de divagação mental, o cérebro não está de forma alguma em repouso. Na verdade, ele apenas está processando informações de maneira diferente. Assim, a divagação mental controlada, que envolve uma exploração mental ativa, pode ser altamente benéfica em esportes de alto rendimento — mesmo que seja apenas por alguns segundos. Os melhores jogadores parecem saber quando se concentrar e quando se distanciar. Às vezes, eles desviam o olhar da bola e absorvem uma perspectiva mais ampla da partida. Então, quando surge uma oportunidade crucial de marcar um gol, eles fixam sua concentração e estão 100% presentes. Brasil x Haiti: veja as fotos da partida pela Copa de 2026 1 de 26 Seleções do Brasil e Haiti se preparando para cantarem os seus hinos — Foto: ANGELA WEISS / AFP 2 de 26 Bola rolando para Brasil x Haiti — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP X de 26 Publicidade 26 fotos 3 de 26 Foto aérea da seleção brasileira — Foto: Angela WEISS / AFP 4 de 26 Seleção haitiana posa para foto — Foto: Angela WEISS / AFP X de 26 Publicidade 5 de 26 Gabriel Magalhaes na partida contra o Haiti — Foto: Roberto SCHMIDT / AFP 6 de 26 O zagueiro haitiano Ricardo Ade e o atacante brasileiro Matheus Cunha disputam a bola — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP X de 26 Publicidade 7 de 26 Raphinha, autor do primeiro gol que foi impedido — Foto: Roberto SCHMIDT / AFP 8 de 26 Vinicius Junior e Casemiro — Foto: Jewel SAMAD / AFP X de 26 Publicidade 9 de 26 Raphinha fez o primeiro gol, que acabou sendo impedido — Foto: Getty Images via AFP 10 de 26 Brasil x Haiti, pela segunda rodada da Copa do Mundo — Foto: Kevin C. Cox / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP X de 26 Publicidade 11 de 26 Matheus Cunha comemora gol que abriu o placar contra o Haiti — Foto: ANGELA WEISS / AFP 12 de 26 Raphinha, do Brasil, no duelo com Haiti — Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP X de 26 Publicidade 13 de 26 Comemoração de gol de Matheus Cunha no jogo do Brasil contra o Haiti na Copa do Mundo — Foto: Dan Mullan / Getty Images via AFP 14 de 26 Atacante do Brasil faz partida abaixo nos primeiros minutos de jogo — Foto: ANGELA WEISS / AFP X de 26 Publicidade 15 de 26 Raphinha tem gol anulado em Brasil x Haiti pela Copa do Mundo 2026 — Foto: Dan Mullan / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 16 de 26 Comemoração de gol de Matheus Cunha no jogo do Brasil contra o Haiti na Copa do Mundo — Foto: Dan Mullan / Getty Images via AFP X de 26 Publicidade 17 de 26 Matheus Cunha faz segundo gol para o Brasil contra o Haiti — Foto: Mauro PIMENTEL / AFP 18 de 26 Seleção brasileira comemora gol sobre o Haiti na Copa do Mundo — Foto: Charly Triballeau / AFP X de 26 Publicidade 19 de 26 Matheus Cunha e Vinicius Junior — Foto: Roberto SCHMIDT / AFP 20 de 26 Raphinha é substituído por Rayan em Brasil x Haiti pela Copa do Mundo — Foto: Kevin C. Cox / Getty Images via AFP X de 26 Publicidade 21 de 26 Raphinha deixa o duelo entre Brasil x Haiti pela Copa do Mundo — Foto: Dan Mullan / Getty Images via AFP 22 de 26 Vinicius Junior comemora o terceiro gol da seleção — Foto: Angela WEISS / AFP X de 26 Publicidade 23 de 26 Vini e Paquetá comemoram gol em Brasil x Haiti na Copa do Mundo — Foto: Kevin C. Cox / Getty Images via AFP 24 de 26 Danilo salva bola em cima da linha em Brasil x Haiti pela Copa do Mundo 2026 — Foto: Angela WEISS / AFP X de 26 Publicidade 25 de 26 Endrick entra em campo pelo Brasil — Foto: Dan Mullan / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 26 de 26 Martinelli acerta o travessão em Brasil x Haiti — Foto: Angela Weiss / AFP X de 26 Publicidade Quando pesquisadores examinaram para onde o grande jogador argentino Lionel Messi olha, descobriram que seus olhos muitas vezes estão longe da bola. O senso comum no futebol sempre foi manter os olhos na bola, mas uma nova pesquisa sugere que o vencedor também deixa a mente vagar e desvia o olhar da ação. O cérebro de Messi parece ser capaz de fazer coisas que muitos de seus adversários não conseguem; ele parece ter habilidades cognitivas de nível extraordinário. Resiliência (para os árbitros) — O futebol é um dos esportes mais difíceis de arbitrar. Os árbitros não só precisam estar em excelente condição física, como também devem ser capazes de se controlar emocionalmente a partida. Isso tem se tornado cada vez mais difícil, com jogadores profissionais simulando lesões rotineiramente e uma regra do impedimento que é interpretada com precisão de frações de centímetro. E há ainda uma das decisões cognitivas mais difíceis e controversas de todos os esportes: o pênalti, marcado por uma falta cometida dentro da área. Com tanto em jogo e todos de olho, o árbitro da Copa do Mundo moderna precisa ter habilidades excepcionais de multitarefa, comunicação e gestão. Os árbitros fazem parte da dinâmica da partida, quer queiram, quer não. Todos os julgam – ainda mais em 2026, já que os árbitros usarão câmeras nas têmporas para que o público possa ver a partida do ponto de vista deles. O conjunto de ferramentas psicológicas do árbitro da Copa do Mundo de 2026 é complexo, mas precisa começar com uma boa dose de resiliência psicológica. Portugal estreia na Copa do Mundo: veja fotos da partida 1 de 10 Cristiano Ronaldo, camisa 7 de Portugal, na partida contra a República Democrática do Congo — Foto: Getty Images via AFP 2 de 10 Elenco da República Democrática do Congo no Houston Stadium — Foto: Getty Images via AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Roberto Martinez, técnico da seleção portuguesa — Foto: Getty Images via AFP 4 de 10 O árbitro Abdulrahman Al Jassim emite cartão amarelo a Bernardo Silva — Foto: Getty Images via AFP X de 10 Publicidade 5 de 10 Joao Neves, camisa 15, comemora o gol de Portugal — Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP 6 de 10 Cristiano Ronaldo discute com o árbitro — Foto: Getty Images via AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 João Neves celebra primeiro gol de Portugal na Copa do Mundo diante da República Democrática do Congo — Foto: Molly Darlington/Getty Images via AFP 8 de 10 Yoane Wissa, camisa 20 da RD Congo — Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 Joao Neves, camisa 15 de Portugal — Foto: Getty Images via AFP 10 de 10 Cristiano Ronaldo teve atuação apagada contra a RD Congo em sua estreia na Copa deste ano — Foto: RONALDO SCHEMIDT/AFP X de 10 Publicidade Equipe portuguesa enfrenta a República Democrática do Congo no Texas Criatividade tática – A criatividade tática no futebol está relacionada a encontrar soluções em campo para situações complexas, sejam elas individuais ou coletivas. Quase sempre depende do pensamento divergente e costuma ser surpreendente e original. Pesquisas mostraram que a criatividade está ao alcance de todos, inclusive dos jogadores de futebol, especialmente se a criatividade tática tiver feito parte do plano de treinamento. Como resultado, a evolução dos estilos de jogo no futebol de elite nas últimas décadas se afastou de um sistema estruturado, com forte ênfase na defesa e baseado na posse de bola, em direção a uma forma moderna de jogar, orientada por dados e baseada na pressão sobre o time adversário em posições avançadas do campo. Isso exige que os jogadores assumam múltiplas funções em campo. Requer um equilíbrio entre inspiração – ou mente aberta – e transpiração, ou disciplina. É claro que, para ser criativo, é preciso ter liberdade para experimentar; “jogar como crianças”, sugeriu o técnico da seleção dos EUA, Mauricio Pochettino. A criatividade tática é um fator-chave do conjunto de habilidades cognitivas que permite que jogadores como o croata Luka Modrić e o belga Kevin De Bruyne antecipem várias jogadas à frente. Essas estrelas do futebol moderno não apenas jogam futebol em um nível diferente, mas também pensam sobre o futebol em um nível diferente. Com a Copa do Mundo já em andamento, psicólogos esportivos como eu – juntamente com torcedores de todo o mundo – podem observar como os atletas colocam alguns desses princípios em prática. E, com um pouco de sorte, o torneio terá momentos de criatividade de tirar o fôlego, e que serão lembrados por toda a vida. * Eric Zilmer é professor de neuropsicologia na Universidade Drexel * Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.