Em minha infância, meu velho costumava assistir as partidas dos Santos esmurrando uma poltrona velha na sala de casa.
Meu pai e meus tios eram santistas e fãs de Pelé não apenas porque Pelé era Pelé, mas porque o Rei Pelé também era negro. A negritude do Rei é um tema complexo e as representações produzidas em relação ao futebol brasileiro na sua conexão com temas como raça e nacionalidade o são ainda mais.
Paul Gilroy, um dos principais pensadores dos estudos culturais britânicos, afirma no prefácio da edição brasileira do seu livro "O Atlântico Negro" que foi um jovem "dissidente pós-colonial que sem nenhuma vergonha, entusiasticamente, escolheu torcer pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970, quando eles tiraram de um time inglês formado apenas por brancos aquilo que acreditávamos ser uma posição totalmente imerecida: o título de campeões do mundo".
A Inglaterra havia conquistado a Copa anterior e tinha um timaço, que contava com o goleiro Gordon Banks, que ficaria conhecido por sua "defesa impossível" ao desviar para fora uma bola cabeceada por Pelé. O Brasil ganharia a partida com um magro um a zero, mas com um golaço de Jairzinho, em uma bola vinda de Tostão e Pelé.
Filho de mãe negra de origem jamaicana e de pai branco inglês, Gilroy via no time brasileiro um lugar de afirmação racial para além das fronteiras nacionais, uma vez que nossa seleção era composta por jogadores negros, um claro contraste com a inglesa.









