Antes de ser selecionado na peneira do Pérolas Negras, em 2016, e sair de Jacmel, no Haiti, para o Rio de Janeiro, Badio Stanley tinha um caderninho onde anotava palavras em português, pois sentia que um dia realizaria o sonho de jogar no país do futebol. O que ele não esperava era que, dez anos depois da mudança, seu país natal voltaria a uma Copa do Mundo após 52 anos justamente no grupo do Brasil, adversário de amanhã, às 22h, pela segunda rodada do Grupo C. — Na hora foi uma alegria imensa, mas agora está dando medo. O meu coração fica dividido. Qualquer time entra numa Copa do Mundo para passar de fase ou até ser campeão. Mas quando você olha um grupo assim, com Brasil e Marrocos, dá um medo. Por outro lado, acredito que esse vai ser o jogo do amor, porque o povo do Haiti torce bastante pelo Brasil — contou. Nesta temporada, o zagueiro e capitão ganhou uma companhia na torcida pela seleção e alguém com quem falar crioulo haitiano, sua língua materna, para matar a saudade de casa. Contratado em 2026, o atacante Jean Filder, de 31, natural de Petit Goâve, foi mais otimista sobre o duelo enquanto falava um português fluente, com ritmo afrancesado e algumas gírias misturadas. — O poder da mente, às vezes, faz uma coisa surreal. Isso é futebol. Se botar na ponta do lápis, Brasil e Haiti vai ser de 15 gols pra lá. É a realidade do futebol, mas dentro de campo pode ser que não seja. É uma seleção poderosa, mas, como eu falo, o que representa o time é o jogador, não a camisa. Depende da vontade e do compromisso que vão ter com o país. Bem-humorados, os dois revelaram que torcerão pelo Haiti, mas que levarão um pedaço da vitória brasileira. — Eu não vou mentir, vou torcer pro Haiti contra o Brasil, porque eu sou haitiano, primeiramente. Eu não vou torcer contra a minha raiz. Vou torcer pro Brasil contra a Argentina e contra outros times. Mas Haiti x Brasil... Eu sou Haiti até o fim. Se der Brasil, aí eu vou ganhar um pedacinho de vitória também, porque eu estou no Brasil. — disse Jean, gargalhando. Jean Filder em treino do Pérolas Negras — Foto: Custodio Coimbra/O Globo Missão de Paz da ONU A interseção entre os países é o Estádio Jair Carneiro Toscano de Brito, em Angra dos Reis, onde treina o Pérolas, que, assim como alguns jogadores desta Copa do Mundo, nasceu em um país, mas tem raízes em outro. O embrião do clube surgiu em 2009, no Haiti, como parte da Missão de Paz da ONU e por meio da ONG Viva Rio, cujo objetivo era levar o futebol como ferramenta de transformação social para um cenário de pobreza e violência. Com os anos, o projeto ganhou corpo e se tornou um time de futebol com forte vertente social e foco em educação. — Foi muito importante para mim, porque lá eu conseguia terminar os meus estudos, já que a escola era de graça para os meninos do time. É um sonho não só o meu, mas de todos os meninos que nascem no Haiti. Sou torcedor e gosto do futebol do Brasil, então no dia em que eu fiquei sabendo que viria, foi uma alegria imensa — diz Badio. — É uma honra para mim fazer parte do futebol brasileiro. É um privilégio enorme, ainda mais no Pérolas Negras, tendo a oportunidade de matar a saudade da cultura do meu país. Poder viver perto das pessoas que falam o meu idioma, que sabem da minha cultura, é um privilégio muito grande. Eu estava precisando recarregar minha bateria, como ser humano, ainda mais como haitiano. — completou Jean. De olho na seleção do Haiti Dos jogadores da seleção haitiana, Badio relembrou os treinos da seleção sub-17, que contava com Acurs (lateral), Danley (volante) e Duverger (goleiro), todos convocados para a Copa. Mais velho, não chegou a jogar com eles, mas descreveu o meia como “perigosíssimo, que pisa na área e chuta bem”. Jean, por sua vez, destacou o camisa 9, Duckens Nazon e Adé, o zagueiro da LDU e capitão, além de ter criticado a ausência de Donald Guerrier. Sobre o estilo de jogo, avaliaram o haitiano como mais cadenciado, como o europeu, e o brasileiro com mais garra e paixão. Entretanto, na arquibancada, contaram que o sentimento é o mesmo: “o brasileiro vive pelo futebol, e o haitiano também”. Diferente deles, que torcerão para o Haiti, explicaram que a ligação com o futebol brasileiro é tão forte que acreditam que haverá muitos haitianos usando verde e amarelo nesta sexta-feira. Confiante de que o Haiti avançará para o mata-mata, o atacante confessou ter ficado incomodado com quem menosprezou a seleção haitiana no sorteio dos grupos. Durante as eliminatórias, a seleção mandou seus jogos em Curaçao por conta da crise política e humanitária que assola o país, que era governado por um Conselho de Transição Presidencial até o início deste ano. O último presidente eleito foi Jovenel Moïse, em 2016, assassinado em 2021. — Só de classificar na Copa do Mundo é um passo gigantesco para um país igual nosso. Porque tem outros países bem melhores de futebol, de estrutura, de organização de vida, de país em termos de pobreza, de cultura, em todos os sentidos. Não dá para desmerecer um país, porque não está falando sobre um time de futebol, ele está falando sobre uma nação. Ele está falando de milhões de pessoas que acabaram de realizar um sonho. Depois de um país ainda que está em guerra. A única coisa que une o meu país no momento é o futebol. Quando é para torcer, todo mundo, independente se é bandido, se não é, todo mundo se une para torcer — desabafou. Jean Filder e Badio Stanley, do Pérolas Negras — Foto: Custodio Coimbra/O Globo Mudanças no uniforme: não era detalhe, era história Há poucos dias do início da Copa do Mundo, a Fifa mandou que a seleção haitiana mudasse seu uniforme e retirasse uma ilustração que ficava na barra da frente, em referência à Batalha de Vertières, que aconteceu em 1803 contra o exército francês de Napoleão Bonaparte e foi importante na independência do país. Contrários à decisão da entidade, Jean e Badio explicaram a relação que têm com este evento histórico e o porquê era importante tê-lo representado na camisa. — Acredito que a FIFA possa ver isso por um lado político, mas a Batalha de Vertières é algo que falamos desde pequenininhos. Todos os haitianos crescem com essa batalha na mente, porque é uma medalha de honra nossa. Porque lá atrás os haitianos foram escravizados e tudo mais. Então, nós crescemos aprendendo bastante sobre a nossa história. É uma honra para nós. Acredito que estar na camisa poderia dar uma força a mais para nós. Sabendo que a gente tem que lutar para isso, a gente tem que batalhar. Então, ter isso na camisa poderia ser algo bom para nós. — explicou Badio. — Futebol é um símbolo de força nossa, a gente vai para a batalha, vai para a guerra. Talvez seja a única coisa que poderia motivar a gente. A cada vez que a gente olha aquele escudo, vai lembrar porque a gente está aqui. Como somos peixe pequeno no meio, a gente não tem como revidar isso, mas se fosse a França com uma coisa dessas, os outros vão falar 'que beleza, que lindo, que maravilha'. Somos um peixe pequeno que consegue surpreender todo mundo. Copa do Mundo é para qualquer um, se você pisar aí tem que brilhar independente. O que você vai fazer tem que brilhar de um jeito, mas é a nossa forma de chegar, de fazer uma coisa diferente, de mostrar a nossa beleza de um jeito que a gente pode aparecer mundialmente. Porque a gente só aparece com coisas erradas no país, guerra, pobreza, tristeza... No momento de alegria a gente pode aparecer e mostrar uma visão diferente do nosso país e vai a Fifa, só por causa de uma imagem, e muda. Não faz sentido isso, isso não é futebol. Futebol é alegria. É igual um jogador que entra em campo com uma outra camisa por baixo, às vezes louvando a Deus, ele fez um gol e acaba levando isso. Acredito que no futebol isso deveria ser válido. Até porque a Copa do Mundo também valoriza muito essa diversidade, as culturas se encontrando, culturas, religiões, enfim. — finalizou Jean. Duckens Nazon com o uniforme original do Haiti — Foto: Reprodução
Haitianos do Pérolas Negras dividem coração contra o Brasil na Copa, comparam estilo de jogo e garantem: 'Paixão é a mesma'
Badio Stanley e Jean Filder são do Haiti, mas defendem o clube do Rio de Janeiro













