Pérolas Negras, de Piraí (RJ), projeto da ONG Viva Rio, nasceu no Haiti e mantém atletas do país no elenco Garrinsha, do Pérolas Negras: golaço contra o Flamengo, e usando a camisa 7 — Foto: Divulgação Garrincha é uma figura lendária do futebol - e um personagem particularmente influente na família haitiana Estinphile. O ex-atacante, campeão do mundo com a seleção brasileira em 1958 e 1962, inspirou o batismo de Garri Estinphile, que jogou futebol profissionalmente no Haiti, e de Garrinsha, seu filho, que não só decidiu fazer a vida correndo atrás de bola como atua no Brasil, a terra do ídolo que deu a ele um nome. Leia também: Garrinsha, de 24 anos, é um dos atletas que dão cara à presença do futebol do Haiti no Brasil. A cooperação entre haitianos e brasileiros - que vão se enfrentar nesta sexta-feira (19/6), às 21h30, na Filadélfia (EUA), na Copa do Mundo - materializou-se no Pérolas Negras, clube que a organização não governamental Viva Rio fundou no Haiti em 2009. A criação do time fez parte dos trabalhos do Brasil na liderança da Missão de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) em território haitiano, que se estendeu de 2004 a 2017. O Pérolas Negras nasceu no Haiti, mas hoje tem sede em Piraí (RJ), disputa a segunda divisão do estadual do Rio e, mesmo com a mudança de país, tem mantido haitianos no elenco. Garrinsha é um deles. O jovem chegou ao Brasil em 2019 para defender as categorias de base do Pérolas Negras, onde ele também se profissionalizou, no ano seguinte. O haitiano joga na posição de meia atacante, mas também atua como ponta - na esquerda e, como o homônimo craque do Botafogo e da seleção brasileira, na direita. Além de jogar ocasionalmente no lado direito do ataque, Garrinsha também tem atuado com alguma frequência com a camisa 7, número que virou sinônimo de Mané Garrincha no Brasil. Foi com essa camisa que o haitiano jogou nas duas equipes que defendeu em 2026, ambas por empréstimo: o Bangu (pelo qual disputou o estadual do Rio e fez um golaço no jogo contra o Flamengo, na primeira fase da competição) e o Joinville, que ele defendeu na campanha da equipe catarinense na Série D do Campeonato Brasileiro. Garrinsha em ação com a camisa do Pérolas Negras: clube se profissionalizou em 2016 — Foto: Divulgação O Pérolas Negras profissionalizou-se quando transferiu sua sede para o Brasil, em 2016, mas a relação da equipe com o Haiti não se limita a ter no elenco jogadores do país, como Garrinsha, o volante Badio ou o atacante Jean Filder, os três haitianos do clube em 2026. A Viva Rio mantém ativa, nos arredores de Porto Príncipe, a capital haitiana, a Academia Pérolas Negras, onde cerca de 150 meninos e meninas, com idades a partir de 11 anos, vivem e estudam. O local oferece educação básica, cuidados médicos, alimentação balanceada e também preparação tática, física e técnica. O objetivo central do projeto, segundo a Viva Rio, não é simplesmente formar atletas para futuras negociações, mas oferecer oportunidade para que possam desenvolver habilidades físicas e interpessoais e senso de responsabilidade. Quando completam 16 anos, os jovens “com mais talento e vontade”, como define a ONG, recebem convite para treinar no Brasil. Depois disso, os que seguem carreira podem atuar como atletas locais: a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) passou a considerar como brasileiros os atletas refugiados e que imigraram por razões humanitárias. No Brasil, os clubes só podem colocar em campo até cinco estrangeiros por partida.