Chegada da seleção brasileira foi acompanhada por dezenas de milhares de haitianos nas ruas Jogadores brasileiros são recebidos por milhares de haitianos em Porto Príncipe — Foto: CBF/Divulgação Um outro jogo contra o Haiti terminou em 6 a 0 para o Brasil, mas a goleada foi um detalhe insignificante diante da importância da partida. O confronto, que ficou conhecido como o “Jogo da Paz”, pertence a essa categoria rara de eventos esportivos que transcendem as quatro linhas. Era 2004 e poucos meses antes o Brasil tinha assumido o comando da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). O governo brasileiro — no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva — e seus diplomatas discutiam formas de aproximar a população haitiana da operação internacional e transmitir uma mensagem de esperança em meio à uma brutal crise política que mergulhava o país em uma duradoura onda de violência. Arrasado por 29 anos de uma ditadura corrupta e patrocinada pelos EUA da dinastia Duvalier — François, o “Papa Doc”, e Jean-Claude, o “Baby Doc” —, o Haiti praticamente se desfez como Estado após a queda, em 1991, do primeiro presidente eleito democraticamente no país em décadas, Jean Bertrand Aristide. O país caribenho tornou-se um pesadelo, marcado por massacres nas ruas e à luz do dia promovidos por membros da antiga guarda dos Duvaliers, os “Tonton Macoute” (bicho-papão, em creole) e gangues de criminosos. Brasília decidiu, então, recorrer ao instrumento de “soft power” de maior alcance do Brasil: a seleção pentacampeã do mundo. Realizado em 18 de agosto de 2004, em Porto Príncipe, o amistoso reuniu Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Roberto Carlos diante de um Haiti mergulhado em instabilidade política e violência. A chegada da seleção foi acompanhada por dezenas de milhares de haitianos nas ruas e o ônibus de transporte dos jogadores saiu do aeroporto cercado por uma multidão de torcedores eufóricos. Mais de 30 mil pessoas lotaram o estádio Sylvio Cator. Ronaldinho Gaúcho marcou três gols na vitória do Brasil sobre o Haiti por 6 a 0, o 'Jogo da Paz, em 2004 — Foto: Divulgação/CBF Segundo os líderes haitianos da época, a paixão pelo futebol conseguiu provocar um raro momento de unidade nacional e substituir o medo, a tensão e as divisões políticas por um sentimento coletivo de celebração. Para muitos haitianos, a presença da seleção representava um reconhecimento internacional que o país raramente recebia. Após o apito final, torcedores invadiram o gramado para abraçar os jogadores. A cena impressionou o mundo. Agências internacionais, emissoras de televisão e jornais de diversos países destacaram o amistoso como um raro exemplo de diplomacia esportiva, capaz de produzir, ainda que temporariamente, um sentimento de unidade nacional em um país mergulhado na instabilidade. Muitos lembraram outros dos mitos mais conhecidos da relação entre esporte e política, como a história de que Pelé teria parado uma guerra, em 1969, durante uma excursão do Santos à Nigéria — quando uma trégua temporária foi decretada em meio à guerra civil da Biafra para que a população pudesse assistir ao jogador. Ou quando o americano Jesse Owens, nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, moeu o mito da supremacia racial ao conquistar quatro medalhas de ouro sob o nariz de Adolf Hitler. O Jogo da Paz não trouxe a paz definitiva ao Haiti — cuja instabilidade e pobreza sem agravaram após o terremoto devastador de 2010. Ainda assim, deixou a imagem duradoura de como o esporte pode oferecer alguns momentos de esperança em meio à uma realidade quase permanente de angústia e desespero. Haitiano corre na frente de carros da ONU com jogadores da seleção brasileira em 2004 — Foto: Divulgação/Fifa
'Jogo da Paz': O outro Haiti x Brasil, que entrou para história em 2004
Chegada da seleção brasileira foi acompanhada por dezenas de milhares de haitianos nas ruas










