Juhliane Camargo começou a se aventurar no mundo dos negócios aos 19 anos, quando cursava nutrição e nem tinha experimentado um emprego. O país passava pela pandemia, então ela resolveu aproveitar a quarentena para mergulhar em cursinhos on-line de marketing e tecnologia da informação (TI). Em seguida, começou a oferecer pela internet serviços a profissionais da saúde, tão demandados naquela época. Deu certo. — Vi que havia um gargalo no mercado, muita demanda por serviços de marketing, mas poucas pessoas capacitadas no meio on-line — conta Juhliane, hoje com 25 anos e dona de uma empresa de marketing digital com três funcionários e mais três prestadores de serviço. Atualmente, ela se divide entre a empresa e a clínica de nutrição. A remuneração, revela, pode variar de R$ 18 mil a R$ 30 mil, mas ela não liga para a falta de estabilidade: foi mordida pelo empreendedorismo. A empresária conta que a tecnologia foi um dos principais estímulos para que começasse a vida profissional pelo próprio negócio. Facilita e dá mais liberdade, diz: — Nunca me passou pela cabeça ter carteira assinada. Mudança de perfil O maior interesse dos jovens pelo empreendedorismo aparece em uma radiografia do trabalho naqueles com idade de até 29 anos, feita pelo Sebrae. O levantamento mostra que o universo de empreendedores nessa faixa etária cresceu em 14 anos. Entre 2012, a primeira análise, e o ano passado, quase 800 mil jovens entraram para o grupo de donos de negócios no Brasil, elevando o contingente para 4,897 milhões. — Foto: Editoria de Arte O nível de escolaridade de quem empreende nessa faixa etária também subiu. Jovens com ensino superior incompleto ou mais eram 14,1% em 2012. No fim do ano passado, a taxa subiu para 27,8%, alta de 13,7 pontos percentuais em pouco mais de uma década. São pessoas com menos dificuldade de conseguir emprego, mas que abrem negócios. Desde 2019, essa faixa de escolaridade passou a ocupar o segundo lugar entre empreendedores, abaixo apenas do nível de ensino médio completo, que também subiu, de 31% para 46% no período. Para o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, o maior acesso à educação nas novas gerações e os avanços tecnológicos impulsionam mais jovens a buscar o próprio negócio em vez do primeiro emprego. — A pesquisa mostra que os jovens estão empreendendo, e aí existe um fator muito importante que é o aumento da escolaridade — diz Soares, citando a expansão das vagas em universidades públicas nas últimas duas décadas. Por outro lado, os dados sugerem que parte dos jovens que criam seus negócios toma essa decisão por dificuldade de encontrar um lugar no mercado de trabalho. O levantamento tem como base resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, entre o primeiro trimestre de 2012 e o quarto trimestre de 2025, e abrange trabalhadores formais e informais. Apesar do crescimento do empreendedorismo entre os jovens, dois terços deles estão na informalidade, segundo identificou o Sebrae. Quatro em cada dez são chefes de família, uma proporção pouco acima da registrada em 2012. O rendimento médio dos jovens que trabalham por conta própria era de R$ 2.576 no fim de 2025, 30,5% abaixo daquele dos maiores de 30. Já os jovens que têm um CNPJ têm rendimento 156% superior aos informais, segundo o estudo. — Se me formalizo, a chance de minha empresa crescer e a renda melhorar é maior, porque eu consigo ter mais crédito, além de acesso a consultorias — destaca Soares. Difícil inserção Juhliane Camargo (à direita) conversa com funcionários: ela começou a empreender aos 19 anos. Hoje, aos 25, dirige a própria empresa e uma equipe de seis pessoas — Foto: Brenno Carvalho As pesquisas de emprego do IBGE mostram que a taxa dos jovens sem ocupação (entre 18 e 24 anos) teve queda, mas ainda é mais que o dobro da registrada entre os adultos. O percentual caiu de 16,1% em 2012 para 13,8% em 2025. No caso dos adultos, a taxa baixou de 8% para 6,1%. Para especialistas, a falta de experiência dos jovens é um fator natural que dificulta a inserção no mercado formal de trabalho, o que pode empurrar trabalhadores dessa faixa etária para atividades por conta própria e para a informalidade. Por outro lado, as facilidades da tecnologia são um incentivo para empreender com pouco capital, e a predominância de vagas de baixa remuneração no processo que levou a taxa de desemprego aos níveis mínimos históricos recentemente pode desestimular ainda mais o emprego tradicional. Para o economista José Ronaldo Souza, CEO da consultoria Quantivis Analytics, jovens não veem mais tantas vantagens em ter carteira assinada. Com mais informação sobre cultura empreendedora, identificam um hiato entre o que o empregador ganha e o que paga ao trabalhador, ou entre os salários iniciais e o que avaliam que poderiam ganhar com base em resultados. Então decidem tomar um atalho por meio de um negócio próprio, com maior flexibilidade, diz o economista: — Ter esse tipo de retorno não exige mais um empreendimento complexo, diante de novas ferramentas da internet. Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva para o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), entidade sem fins lucrativos que atua em capacitação e estágio de jovens, evidencia essa mudança. A remuneração, que era a principal preferência na busca por um lugar no mercado de trabalho, perdeu espaço para oportunidade de crescimento profissional, escolhido por 54% dos 8,8 mil ouvidos de 14 a 24 anos. O salário ficou em segundo lugar, com 43%, seguido por ambiente de trabalho — com destaque para saúde mental e flexibilidade — trabalho remoto e híbrido. Formado em Publicidade, Sérgio Rodrigues Souza até trabalhou com carteira assinada por quatro anos, mas decidiu seguir por conta própria por considerar que não se encaixava no regime rígido da CLT. Desde 2019, quando ainda nem tinha 30 anos, é dono de uma agência de publicidade digital, que presta serviços de design e gestão de mídias sociais para outras empresas. Começou como microempreendedor individual (MEI), mas logo migrou para a categoria de microempresa ao superar o limite de faturamento anual de R$ 81 mil. — Há muitas oportunidades no mercado. É um bom caminho para quem é organizado e disciplinado, não dá para empreender sem organização. A gente substitui a rotina CLT pela responsabilidade de comandar um negócio — diz. Mulheres são quase 37% Apesar de os homens serem maioria entre os jovens empreendedores, a participação feminina é expressiva e chega a 36,5%, segundo o Sebrae. Foi num carnaval que a então estudante de Arquitetura Rafaella Alcoforado decidiu montar uma loja virtual com três amigas para vender adereços e obter dinheiro para curtir a folia. Foi um sucesso. Elas despacharam tiaras para vários estados. — Foi ali, comprando material e montando os adereços, que entendi que queria empreender. Foi a virada de chave para mim — diz Rafaella, que depois de formada abriu o próprio escritório com uma sócia. As duas, porém, ainda têm o desafio de melhorar o faturamento, em média de R$ 12 mil por mês.