Gerando resumoPor que eles estão largando a carteira assinada para vender no TikTok ShopE-commerce da plataforma de entretenimento atrai pessoas anônimas e criadores de conteúdo; especialistas alertam "promessa de dinheiro fácil". Crédito: Fotografia e som: Léo Souza | Edição: Júlia PereiraHá um ano, Mariza Oliveira, de 42 anos, atuava como assistente financeira em uma agência de seguros, de onde tirava o sustento da família com uma remuneração inferior a dois salários mínimos. A história começou a mudar quando a irmã a presenteou com um curso sobre vendas na internet. Ela decidiu abrir uma conta no TikTok e postar vídeos de itens de maquiagem, decoração e outros produtos, em troca de comissões pelas vendas geradas pelas gravações. PUBLICIDADENa primeira rodada de tentativas, em junho do ano passado, ganhou uma comissão de R$ 50. No mês seguinte, o valor subiu para R$ 2 mil, o suficiente para largar a carteira assinada, único modelo de contrato em que tinha trabalhado pelos vários empregos que exerceu desde os 18 anos. Assim, Mariza se tornou um dos múltiplos rostos do TikTok Shop, ferramenta de vendas da rede social que tem estimulado um crescente número de profissionais a desistir do emprego formal em busca de renda maior e autonomia. Inaugurado no Brasil em maio do ano passado, o formato opera como um programa de afiliados, que conecta vendedores e pessoas cadastradas diretamente na plataforma para vender produtos de diversas marcas. Nesse modelo, as pessoas — sejam anônimas ou criadoras de conteúdo — podem recomendar produtos por meio de vídeos e lives e receber comissões a partir das vendas geradas. PublicidadeNa época em que criou uma conta na rede, Mariza precisou atingir a meta de cinco mil seguidores para começar a promover as vendas. Hoje, a exigência caiu para dois mil. Ela afirma ter alcançado, em único mês, renda de R$ 35 mil, o equivalente a cerca de 22 salários mínimos. “Antes eu estava sobrevivendo. Minha vida deu um giro de 360º, estabeleci como meta sair da CLT, se desse certo, e aconteceu”, relata. Aos 42 anos, Mariza Oliveira está trabalhando pela primeira vez em um emprego que não é de carteira assinada Foto: Arquivo pessoalMovimentos como o de Mariza podem deflagrar uma corrida de profissionais para trabalhar na rede social, afirma o economista Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. O risco agora é o de que isso crie resultados desiguais. “Quem chegou mais cedo vai abocanhar mais. Quem vier depois não vai fazer (dinheiro) como fazia na CLT”, prevê. Hoje, o País soma quase 39 milhões de pessoas com carteira assinada, que representam a maior fatia dos contratos de trabalho. O regime, porém, tem enfrentado questionamentos geracionais, à medida que os jovens aumentam a busca por flexibilidade e melhores condições. O economista pondera, no entanto, que o modelo do TikTok representa uma evolução de um fenômeno já existente no Brasil. Foi rejuvenescido pela tecnologia e pelo alcance exponencial das plataformas, mas segue antigo porque ainda exige as mesmas habilidades de um vendedor tradicional. A diferença está na escala. “Antes, o vendedor precisava bater de porta em porta”, afirma.PublicidadeModelo resgata lógica dos catálogosA lógica de trabalho no TikTok Shop é uma versão repaginada da venda de produtos por meio de revistas, popular nos anos 90, 2000 e 2010, afirma Rafaela Lotto, CEO da Youpix, consultoria de economia de influência. “A Avon, por exemplo, criou um modelo de venda direta que empoderava a mulher a ter renda. É uma coisa parecida. Agora, os programas dessas empresas estão ameaçados. Você acha que uma menina de 20 anos quer vender revista ou estar no TikTok?”, provoca Lotto. Procurada, a Avon afirmou que o avanço do e-commerce ampliou a rede de consultoras da empresa. De acordo com a companhia, atualmente são mais de 1,5 milhão de consultoras e 500 mil empreendedoras digitais que receberam capacitação.“O digital deu escala ao nosso modelo de relações. Nossas consultoras criam conteúdo, influenciam suas comunidades e, como consequência, as vendas acontecem. Quem domina o digital fatura 2,3 vezes mais. O Minha Loja, espaço digital da consultora, permite vender online para todo o Brasil. O TikTok Shop se soma a essa revolução”, afirmou Maria Eduarda Cavalcanti, diretora de Venda Direta da Natura e Avon Brasil.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO cenário de vendas diretas vive um momento promissor no País, confirmam pesquisas. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), a modalidade reúne cerca de três milhões de empreendedores e movimentou R$ 50 bilhões no último ano. Do total, 79,9% dos empreendedores do setor afirmam utilizar as mídias sociais como canal de vendas, contra 46,4% das vendas presenciais.Adriana Colloca, presidente da ABEVD, afirma que o empreendedor brasileiro foi pioneiro nas vendas diretas e que as redes sociais se tornaram extensões desse modelo de negócio. “Quando falamos em creator economy, estamos falando de um território que a venda direta conhecia, o poder de uma indicação genuína, amplificado pela tecnologia. Uma consultora que antes alcançava clientes no bairro pode construir uma carteira com centenas de pessoas”, ressalta. O trabalho, contudo, é diferente do dia a dia de um influenciador. “Quando essas pessoas se dedicam, começam a ganhar dinheiro rápido, ao contrário do que acontece com o criador de conteúdo, que precisa crescer, ter seguidor e ser notado pelas marcas”, explica. Ex-participante do programa Big Brother Brasil, da TV Globo, Bárbara Heck faz parte do grupo de influenciadores que atua no mercado de afiliados há alguns anos. A entrada no TikTok Shop aconteceu em agosto. De lá para cá, ela realizou cursos na área, incluindo alguns sobre venda na internet. “Como criador de conteúdo, sempre tento me atualizar e olhar para as oportunidades. Gosto de ganhar dinheiro”, disse ao Estadão. No começo, “muita gente torceu o nariz”, conta a influenciadora. Embora não seja a renda principal da ex-BBB, ela insistiu no negócio, com dois vídeos por dia, e conseguiu faturar mais de R$ 4 milhões para as marcas na plataforma. Em novembro, a comissão foi de R$ 66 mil, em março de R$ 73 mil e em abril chegou a R$ 80 mil. A ex-BBB Bárbara Heck já faturou 4 milhões para as marcas no TikTok Shop Foto: Instagram/ReproduçãoDinheiro rápido atrai profissionais CLTFoi exatamente a promessa de remuneração alta que estimulou Lucas Rezende, de 27 anos, a trocar um salário de R$ 2 mil em uma loja de construção em Angatuba, no interior paulista, pelo TikTok Shop. Ele começou aos poucos. Em janeiro deste ano, começou a fazer lives após o expediente com a venda de alguns produtos, mas foi somente há dois meses que resolveu pedir demissão para se dedicar integralmente à plataforma. “Eu calculei de quanto eu precisava para ganhar mais que o meu salário. Multipliquei e depois dividi por 30 dias do mês, vi que dava R$ 60. Pensei: se eu conseguir fazer R$ 60 por dia no TikTok Shop, posso largar a CLT“, relembra. A decisão veio após viralizar com a venda de mil unidades de uma carteira masculina que custava R$ 20. A cada item vendido, ele recebia uma comissão de R$ 2. Em apenas dois meses, Rezende diz ter ganhado o dobro do que alcançava no antigo emprego. Em março chegou a R$ 4 mil. Hoje, ele faz quatro lives por dia, com duas horas de duração cada, além da publicação de seis vídeos divulgando produtos, principalmente acessórios masculinos e produtos de casa. PublicidadeHá dois meses, Lucas Rezende, de 27 anos, decidiu pedir demissão do emprego CLT para se dedicar no TikTok Shop Foto: Arquivo pessoalNão há um valor fixo pelas mercadorias que comercializa. Lucas afirma que, na maioria das vezes, a comissão não ultrapassa 15%. “É pouco. Um produto de R$ 100, ganho R$ 8 ou R$ 10 por produto. Por exemplo, a carteira eu ganhava por quantidade do que vendia”, explica. Questionado, o TikTok Brasil afirmou que as taxas de comissão são definidas pelos próprios vendedores e que “a lógica de remuneração está diretamente ligada à performance”. Disse ainda que o modelo “incentiva a produção de conteúdo mais autêntico e relevante para a audiência”. No entanto, não indicou detalhes dos critérios que a plataforma caracteriza como alta performance. A comissão só é paga quando o produto chega na casa do cliente e não é feito reembolso ou devolução.Para a autônoma Mariza Oliveira, que começou a vender no TikTok Shop com somente cinco mil seguidores e hoje soma mais de 100 mil, a transição de carreira a permitiu dar uma “vida mais confortável” para a família. No mês de maior rendimento, alcançou uma comissão de R$ 35 mil e vendeu 10 mil produtos com um faturamento de R$ 500 mil para as marcas. O item campeão de vendas é um lençol de cama, mas ela também divulga decoração de casa, beleza e cuidados. Mariza Oliveira diz ter mudado de vida com a renda que ganha no TikTok Shop Foto: Arquivo pessoalAtualmente, Mariza diz que a renda mensal gira em torno de R$ 15 mil, dos quais 10% são destinados à agência que a acompanha há alguns meses. Mesmo com uma renda 10 vezes maior do que recebia como CLT, ela planeja aumentar a remuneração. Agora, com 20 vídeos publicados por dia, a meta é diversificar a receita com mentorias para outras mulheres que desejam entrar na plataforma e se consolidar como influenciadora digital. Publicidade“Não é fácil como as pessoas pensam. Você tem de postar com estratégia, ter um roteiro legal e, quanto mais tempo passa, mais a concorrência aumenta. O nível está se elevando, o algoritmo também vai mudando, então cada dia fica mais acirrado”, ressalta. A especialista Rafa Lotto concorda que a “promessa de dinheiro rápido” pode ser ilusória. A barra de entrada no mercado é baixa — basta ter um celular e tempo livre para fazer as publicações. Mas a facilidade também cria um ambiente de competição potencialmente complexo.“É mais fácil do que era antigamente, mas não é mágica. No longo prazo, vai haver mais concorrência, como acontece com o mercado de influenciadores. As marcas não têm os mesmos cachês de antes. Dificilmente tem cachê de R$ 200 mil; precisa ralar bastante para isso acontecer”, afirma. Funcionário do algoritmo Desde que começou no TikTok Shop, a designer Thamires Durazzo, de 37 anos, vem sentindo as oscilações do trabalho na plataforma. “O emocional complica. Um mês você pode fazer R$ 1 mil, no outro R$ 10 mil, depois R$ 2 mil. Aí você fala: “Meu Deus, o que que eu faço agora?”, reflete a influenciadora, que começou a atuar na rede social após pedir demissão da empresa em que estava há seis anos, depois de um diagnóstico de burnout. PublicidadeEmbora tenha começado a criação de conteúdo por hobby, a entrada no TikTok Shop foi estratégica. Ela começou vendendo um produto que tinha em casa e que estava disponível no marketplace da plataforma. “Primeiro, você mostra que vende para o fornecedor confiar no seu trabalho e seu GMV (volume bruto de mercadoria) aumentar. Sua casa é a sua vitrine”, explica.Thamires Durazzo entrou no TikTok Shop após um diagnóstico de burnout Foto: Arquivo pessoalAo longo dos meses, a renda aumentou gradualmente, mas ela escolheu não aumentar exponencialmente a carga de trabalho. Hoje, posta de 15 a 20 vídeos por dia. “Eu saí de um burnout, então quis mudar meu estilo de vida. Eu quis acordar com calma. Meu momento de vida não era para me tornar uma CLT de TikTok”, reforça. Para manter uma rotina mais equilibrada, Thamires optou por produzir apenas vídeos voltados para o perfil da audiência que a segue. “Não faço live. Mas você pode trabalhar de acordo com o que você quer para sua vida. Gosto de trazer dicas para as pessoas, não quero ficar empurrando o produto”, aponta a criadora, que tem um faturamento mensal médio de R$ 60 mil e comissão de aproximadamente R$ 7 mil por mês. Por outro lado, o grande impasse é deixar de ter “um salário comum” sem prejuízos para a saúde mental. “Eu quero mudar de vida, continuar investindo e aprender a escalar”, diz.PublicidadeLeia também Bicos, dívidas e cansaço: nova realidade do trabalho expõe descompasso com iniciativas do governoPor que influenciadores estão deixando as redes e voltando ao regime CLTPara Lucas Rezende, o desafio é evitar cair na armadilha do trabalho sem pausa. “Não é fácil, mexe com o psicológico, é até ganância, porque se você fizer live, você vai vai ganhar dinheiro. Então, surge a vontade de ficar 24 horas na live. Mas consome o tempo e exige muito esforço”, diz. De acordo com o TikTok Brasil, as vendas por live são um dos principais “motores de engajamento e conversão”. De maio a setembro de 2025, a média diária de GMV proveniente de transmissões ao vivo aumentou 21 vezes, segundo dados da plataforma. A empresa não abriu o número de afiliados ativos no Brasil, informou apenas que, entre maio e setembro do ano passado, o número de criadores com vendas mensais cresceu 12 vezes e o número de vendedores, 11 vezes.