A trajetória de uma startup até atingir o porte de média empresa inclui etapas imprescindíveis, como validação do produto, construção de métricas de crescimento, viabilidade de escala comercial e previsibilidade. A análise é do advogado Bruno Balduccini, sócio do Pinheiro Neto, que coordena o Programa de Aceleração Jurídica para Startups do Pinheiro criado pelo escritório há dez anos. O programa, que já assessorou cerca de 50 startups, chama atenção sobre a relevância dos cuidados com aspectos regulatórios e questões jurídicas em negócios inovadores no sistema financeiro. Para além das etapas fundamentais à transição de uma startup em um negócio de médio porte, Balduccini diz que é preciso foco e estrutura jurídica. Sem esses requisitos, as condições para executar uma boa ideia e tornar o produto ou serviço atraente para o mercado, incluindo investidores, são mais desafiadoras. Entre as principais dificuldades enfrentadas no caminho que leva startups a se tornarem médias, estão descuidos com a governança e a complexidade regulatória brasileira. Na avaliação do advogado, à medida em que a startup cresce, também aumenta a necessidade de estabelecer processos , estruturas de compliance, segurança da informação, governança corporativa e controles internos. Essas condições são ainda mais necessárias para atender demandas clientes corporativos e investidores institucionais, observa. A complexidade regulatória do Brasil também merece atenção. “Startups brasileiras convivem com um ambiente tributário e regulatório sofisticado, especialmente em setores como fintech, healthtech, IA, infraestrutura financeira e dados”, diz Balduccini. Outro fator que pode impactar a evolução das startups são as transformações tecnológicas. Balduccini ressalta que a aceleração da inteligência artificial mudou radicalmente o cenário competitivo. “Em muitos setores, startups passaram a competir não apenas entre si, mas também com grandes plataformas globais integrando IA nativamente em seus produtos”, frisa. Captação sem perder o controle Após a era mais abundante na atração de capital vivenciada pelas startups brasileiras, sobretudo, entre 2020 e 2021, o cenário dos negócios conhecidos como disruptivos enfrentou uma era de restrições. A fase de menor oferta de capital, que ficou conhecido como o “inverno das startups”, aumentou a seletividade dos investidores, que subiram o crivo sobre eficiência operacional e sustentabilidade financeira. Essa mudança na avaliação das startups levou os fundos de venture capital (capital de risco) a privilegiarem empresas com métricas sólidas e menor dependência de capital intensivo, ressalta Balduccini. Nesse contexto, o Programa de Aceleração Jurídica para Startups do Pinheiro Neto tem orientado os fundadores de negócios inovadores a manter um plano para escalar receita que possa equilibrar simultaneamente margem e eficiência. “Muitas startups conseguem crescer rapidamente, mas têm dificuldade em transformar crescimento em operação sustentável. O grande desafio hoje é crescer com previsibilidade e disciplina financeira”, diz Balduccini. Vanessa Jacob Heck, consultora da prática de Venture Capital do Pinheiro Neto Advogados e que também atua no Programa, chama atenção para estruturas jurídicas que garantam proteção no momento em que investidores fizerem aportes no negócio. É preciso avaliar se a entrada de investidores pode diluir o controlador a ponto de perder sua capacidade decisória. “Se a startup não é bem assessora, há um senso de urgência na captação no início da operação. A empresa pode partir para uma série seed [fase inicial de investimentos em startups] em que o fundador, por exemplo, tem 50%, e a empresa já está muito diluída. Isso é delicado”, avalia Heck. Empreender está muito mais relacionado a uma metodologia, às rotinas, à capacidade de fazer aquilo constantemente contra todas as estatísticas num ambiente de alta incerteza, difícil, afirma Paulo David, que é sócio fundador da AmFi. Uma das startups assessoradas pelo programa do Pinheiro Neto, a AmFi é uma plataforma que combina finanças tradicionais com a tecnologia blockchain para oferecer mais transparência no lastro das operações de crédito privado.