O estresse nos mercados, especialmente na curva de juros, reflete, segundo fontes ouvidas pela coluna, a mudança para pior no cenário internacional e o aumento das chances de Lula se reeleger, por causa dos problemas envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro.PUBLICIDADENeste segundo caso, a percepção é de que Lula, caso reeleito, não fará o ajuste necessário para estancar a crise fiscal estrutural que paira como uma ameaça permanente à economia brasileira. O mercado supõe que um candidato da oposição de direita faria o ajuste, embora essa crença esteja longe de ser bem fundamentada, na visão da coluna.Segundo um experiente gestor, a mudança do cenário internacional está revelando o verdadeiro estado da economia brasileira.Essa mudança começou com a guerra no Oriente Médio, que não chegou a sacudir muito os ativos brasileiros (o País é um substancial exportador líquido de petróleo e derivados). Agora, porém, com a alta da inflação na esteira do choque do petróleo, há a expectativa de que os Estados Unidos não só não vão mais cortar juros, como podem começar a elevá-los até o final deste ano.Essa segunda parte da mudança internacional afeta fortemente o Brasil, com os capitais refluindo para a economia central e saindo de destinos mais arriscados, cujo risco era tolerado num ambiente de queda internacional dos juros, mas é rejeitado num ambiente de alta.Publicidade"Com a mudança no cenário externo, a fragilidade fiscal do Brasil finalmente foi para o preço", resume o gestor. Para ele, a precificação do risco do País está muito mais ajustada agora do que na bonança de 2025 e parte de 2026.Um segundo problema, prossegue o analista, é que as perspectivas fiscais do Brasil pareciam menos feias num contexto em que se projetava queda dos juros no País, puxada pelo ciclo de cortes da Selic.No início do ano, havia a percepção de que a taxa básica poderia sair de 15% para algo em torno de 12%, ou até mais próximo de 11%, para os mais otimistas. Agora, depois de dois cortes de 0,25 ponto porcentual, o mercado já precifica interrupção do ciclo, com Selic a 14,5%, e até alta da taxa básica à frente.Isso cria um panorama bem pior para os juros nominais da dívida pública, que são o grande componente do déficit nominal, que se transmite diretamente para o tamanho da dívida pública. Em resumo, a interrupção abrupta da queda de juros no Brasil, precificada pelo mercado, piora o já desolador cenário fiscal.Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence Analytics (GIA), vê na alta da curva de juros o reflexo de um "novo regime fiscal" no Brasil, com fragilização da gestão das contas públicas (Manoel também enfatiza a incerteza eleitoral como fator importante do atual estresse nos mercados).PublicidadeEsse novo regime, para o economista (que esteve por três períodos diferentes no Ministério da Fazenda/Economia), tem algumas semelhanças e uma importante diferença em relação ao regime da época da nova matriz econômica no governo Dilma.PUBLICIDADEAs semelhanças são a deterioração do controle do ritmo de crescimento das despesas, o aumento do 'float' dos restos a pagar e a fragilização institucional do regramento das contas públicas. Mas a importante diferença é que, no Lula 3, houve um importante e bem-sucedido trabalho de recuperação da receita, ao contrário do período de Dilma.Com isso, aponta Manoel, o atual regime fiscal é mais sofisticado do que o de Dilma, e, apesar de a situação estrutural das contas públicas continuar não sustentável, a dinâmica que poderia levar a eventual crise aguda é bem mais difícil de projetar.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/6/2026, quarta-feira.Publicidade