Veio bem a calhar, para a tentativa de reeleição de Lula, o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, o que custou ao principal candidato da direita cerca de 5-6 pontos porcentuais (pp) nas pesquisas de opinião. O novo tarifaço contra o Brasil e as ameaças do governo Trump (ao qual Flávio faz questão de mostrar adesão) ao Pix são um fator naquela mesma direção.PUBLICIDADEAs rachaduras na candidatura de Flávio coincidem com um momento em que o cenário externo e o risco climático tornam o cenário bem mais complicado para Lula.Até meados de abril, vigorava céu de brigadeiro para o candidato da situação em relação aos indicadores de mercado. A bolsa subia, os juros caíam com a perspectiva de um ciclo de corte da Selic de 2-3 pontos percentuais, e o real se valorizava.A partir daí, as coisas começaram a se complicar. A Bolsa começou a cair e os juros a subir, mas o câmbio só veio a se desvalorizar mais recentemente, saindo da faixa em torno de R$ 5 para mais próximo de R$ 5,20.Esses desdobramentos, claro, acompanharam a piora no cenário inflacionário. O IPCA projetado na última leitura do Focus para 2026, 2027 e 2008 é de, respectivamente, 5,11%, 4,03% e 3,66%, comparado a 4,8%, 3,99% e 3,6% em meados de abril.PublicidadeNote-se que essa piora é posterior à eclosão, no final de fevereiro, da guerra no Oriente Médio, cujos efeitos não impediram que os ativos brasileiros - mesmo com elevação das expectativas inflacionárias - continuassem tendo um desempenho relativamente bom durante certo período, que aparentemente acabou.Diversos analistas enfatizam que a piora da inflação e das expectativas inflacionárias não pode ser debitada somente à guerra no Irã (e ao decorrente choque do petróleo), mas também ao aquecimento da economia brasileira, apesar da dose cavalar de juros altos.Nesse sentido, foram preocupantes os números do PIB do primeiro trimestre, revelando consumo das famílias e do governo bastante aquecidos, enquanto o investimento recuava na base de comparação anual. A marca registrada da enxurrada de estímulos eleitorais, fiscais e parafiscais ficou clara nesses resultados.O Banco Central agora está na berlinda, com analistas e a curva de juros já apontando probabilidade relevante de interrupção do recém-iniciado ciclo de cortes da Selic. Como a campanha de Lula vai digerir eventual parada na redução da taxa básica de juros é algo ainda a conferir.É importante apontar que essa piora no mercado doméstico é acompanhada (e em boa parte causada) pela piora no ambiente financeiro internacional. Como apontado hoje na coluna de Fábio Alves, do Broadcast, o mundo está entrando numa fase de alta dos juros para combater o choque inflacionário do petróleo.PublicidadeNos Estados Unidos, não se fala mais em corte da taxa básica, e surge até a possibilidade de alta até o final do ano. A rentabilidade do título de dez anos do Tesouro americano tem oscilado, mas claramente subiu de um nível próximo a 4,25% em meados de abril para mais de 4,5% nos últimos dias. Logo antes da guerra no Oriente Médio, estava em torno de 4%.Do ponto de vista do Brasil, a alta do juro norte-americano é um dos principais fatores de elevação da curva de juros doméstica e de piora dos ativos brasileiros.E, para coroar essa deterioração no ambiente internacional, há a probabilidade significativa de que ainda este ano se manifeste um fenômeno El Niño muito forte.Como nota André Braz, coordenador de índices de inflação no FGV-IBRE, o surgimento dessa previsão de El Niño é responsável (junto com algum risco cambial) pelo aumento da expectativa de inflação de alimentos em 2026 de 3% para a faixa de 6,5-9,5%.A faixa larga é por conta de ainda haver incerteza sobre a intensidade do fenômeno, explica Braz. No passado, já houve episódios de previsão de El Niño forte, que acabou se revelando de intensidade normal. Ainda assim, nessa melhor hipótese, a projeção de inflação de alimentos dobra entre o início do ano e hoje.PublicidadeComo se sabe, inflação e nível de preço da comida têm sido elementos cruciais em eleições mundo afora, com a derrota de Joe Biden para Donald Trump tendo sido atribuída por muitos analistas a esse fator.Dessa forma, um eventual aprofundamento da erosão da candidatura de Flávio (sem que outro candidato da direita assuma o protagonismo que até agora ficou com o filho de Bolsonaro) pode ser essencial para o projeto de reeleição de Lula.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/6/2026, terça-feira.
Opinião | Erosão de Flávio Bolsonaro vem em boa hora para Lula
Desde meados de abril houve piora nos mercados e fator econômico complicou-se para Lula, com expectativa de forte alta da inflação de alimentos com o previsto El Niño. Assim, problemas de Flávio passam a ser mais importantes para que Lula mantenha liderança nas pesquisas.











