O mercado financeiro vem reagindo ao aumento do favoritismo de Lula nas eleições deste ano em função do escândalo envolvendo a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Na verdade, é difícil separar o que é influência externa, de um mundo vivendo um choque de petróleo e o aumento das tensões geopolíticas, do que é doméstico. Mas não há dúvida de que algum efeito negativo a debacle de Flávio Bolsonaro provocou.PUBLICIDADEO grande temor do mercado em relação à reeleição de Lula permanece sendo a política fiscal. Um experiente gestor de recursos sintetiza o problema com alguns cálculos. A dívida pública cresce, grosso modo, a 14%, e o PIB nominal a 8% (2% de crescimento real e 6% do deflator implícito do PIB).Com um conta simples, essa diferença faz com que a relação dívida/PIB cresça acima de quatro pontos porcentuais (pp) do PIB ao ano. Supondo que a Selic caia para a faixa entre 11% e 12% (ele é cético quanto a isso, na verdade), pode-se dizer que a relação dívida/PIB cresce a 3,5pp ao ano - o que, nos quatro anos do próximo mandato, daria 14pp, após ela ter crescido 9pp, de 73% para 82% do PIB no atual mandato.Assim, a dívida iria a 96% do PIB até o final de 2030, na ausência de um esforço fiscal que levasse o superávit primário a 2-3% do PIB. A partir daí, a trajetória é crescentemente explosiva. Na visão do analista, com a predisposição, várias vezes demonstrada, dos governos petistas de usar a política fiscal para estimular o consumo, na melhor das hipóteses um governo de Lula reeleito entregaria resultados primários em torno de zero.O ajuste necessário, na visão do gestor, envolveria medidas como corte de programas sociais e desvinculação do salário mínimo do reajuste de benefícios sociais e previdenciários - e ele não crê que Lula faria isso.PublicidadeNa sua visão, o crescimento na base de endividamento público e privado (neste caso, incluindo empresas e famílias) a uma taxa de juros elevadíssima não é sustentável e em algum momento deve levar a uma crise. Nesse sentido, o gestor considera que o mercado tem sido até complacente com os riscos à frente, especialmente em relação ao câmbio, que a seu ver é sustentado pelo juro turbinado."A ideia parece ser a de que 'por enquanto não vai quebrar', deixa eu aproveitar o juro de 14%", ele diz.Na visão de outra profissional do mercado financeiro, o fato de os ativos brasileiros, mesmo tendo piorado, ainda estarem sob certo controle se deve em parte à percepção de que a eleição se mantém indefinida, mesmo com o aumento do favoritismo de Lula neste momento.A sensação é de que ainda tem muito a acontecer até outubro, com possibilidades como a substituição de Flávio no campo bolsonarista (Michelle é vista por alguns como uma potencial candidata mais viável); ou de que algum dos outros candidatos de direita (Caiado, Zema e Renan Santos) cresça de forma mais robusta.Uma boa pergunta é por que o mercado supõe que a política econômica será muito melhor no caso da eleição de nomes como Flávio e Michelle, claramente despreparados para governar (caso ganhem) por quatro anos um país grande, complexo e problemático.PublicidadeNovamente, a resposta que se ouve no mercado recai no inescapável tema fiscal. A visão é que um presidente do campo bolsonarista reeditaria a política econômica de Paulo Guedes que, mesmo com várias falhas e concessões, ainda é percebida como fiscalmente bem mais responsável que a deste terceiro mandato de Lula.PUBLICIDADEAdicionalmente, o ambiente internacional permanece como fator decisivo para os ativos brasileiros no que resta deste ano eleitoral e em 2027. Um cenário favorável seria o da guerra no Oriente Médio caminhando para um fim, o dólar se mantendo em queda e a política monetária americana sinalizando alívio mais à frente. Nesse caso, participantes do mercado ouvidos pela coluna creem que mesmo a consolidação do favoritismo e a vitória de Lula poderiam ser absorvidas pelos ativos brasileiros sem uma crise de maiores proporções. Mas é um equilíbrio frágil e muito dependente do humor externo.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/5/2026, quarta-feira.
Opinião | Mercado digere aumento do favoritismo de Lula
Temor segue sendo de descontrole fiscal e dívida pública disparando em eventual quarto mandato de Lula. Analistas veem risco de crise, mas ambiente externo pode adiar momento da verdade.














