As ideias simples são sempre cativantes — mesmo quando não se apoiam em evidências. Se, adicionalmente, têm a serventia de ajudar a sustentar um viés político, tudo fica ainda mais fácil. A voz corrente é que o baixo índice de aprovação do presidente Lula decorre do mau desempenho na economia, agravado recentemente pelo aumento no endividamento das famílias. A reprovação do governo é uma verdade solar. Na última pesquisa Datafolha, em abril, o número de pessoas que avaliavam o governo como ruim ou péssimo superava as avaliações “ótimo” ou “bom” em 11 pontos porcentuais. Está muito melhor que os 79 pontos negativos de Michel Temer, em junho de 2018, recorde da série histórica que começa em 1990. Mas é uma avaliação negativa que contrasta com os 80 pontos positivos de novembro de 2010, no final do segundo mandato de Lula. O maior trunfo do governo ainda é a barafunda alucinada da oposição Foto: Wilton Junior/EstadãoPUBLICIDADEA tendência um tanto preguiçosa é acreditar que a baixa avaliação de hoje decorre da piora das condições econômicas. Não é bem assim. Para aferir as condições econômicas que afetam a vida dos eleitores, tomemos o famoso Misery Index — não a banda americana de death metal, mas o indicador criado pelo economista Arthur Okun. Sua grande vantagem é a simplicidade: trata-se da soma entre a taxa de desemprego e a inflação do consumidor nos últimos doze meses. Como esse índice explica a reprovação do governo? Com muita dificuldade, é a resposta curta. Modelo econométrico simples, baseado em 74 observações entre 2012 e 2026, mostra que as condições econômicas (medidas pelo Misery Index) explicam apenas 23,5% do saldo das avaliações positivas e negativas do governo. Ou seja, não é só dinheiro. PublicidadeO desemprego hoje continua em mínimas históricas. Mesmo a inflação da alimentação no domicílio, sempre citada, registrou míseros 1,3% nos últimos 12 meses, contra uma elevação de 9% no rendimento médio das pessoas ocupadas até março. Também o salário mínimo subiu no atual governo bem mais do que o preço da cesta básica (16,8% a mais, no caso de São Paulo). É preciso ir além da economia. A entrevista recente da presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) pode dar pistas para ampliarmos o debate. Para Bianca Borges, ligada ao PCdoB, o grande desafio do presidente Lula é se conectar com o sentimento das pessoas, em especial com os jovens. A análise é complacente, ainda que correta. É mais do que isso. O presidente Lula é um bom homem do século 20 — com más ideias do século 19. O eleitor está fatigado. Com juros na Lua, que promovem o desemprego, é bastante improvável que o apoio ao governo se recupere, mesmo considerando a sequência interminável de medidas populistas a que temos assistido. O maior trunfo do governo ainda é a barafunda alucinada da oposição.