Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles Crédito: Larissa Burchard/Laís NagayamaA queda da Selic para 14,5% não surpreendeu ninguém. Mas bem que poderia. Um economista marciano interessado na política monetária brasileira poderia ter dificuldade em entender essa redução. Até a guerra contra o Irã, o cenário da inflação era manso, quase aborrecido. Mas tudo mudou de repente. A expectativa do mercado para a inflação de 2026, que vinha caindo desde julho de 2025, saltou de 3,9% para 4,9%. A previsão para 2027 também subiu, ainda que menos, com a hipótese implícita de que o conflito será curto – algo que ninguém pode garantir porque estamos falando de Trump. Poderíamos explicar ao marciano que no Brasil os juros caem quando a expectativa de inflação sobe porque há uma defasagem temporal no efeito dos juros altos. E que os juros já eram excessivamente estratosféricos. Mas também valeria a pena falar sobre a proverbial ineficiência da política monetária. O Decreto n.º 3.088, de 21 de junho de 1999, que instituiu o regime de metas de inflação, estabelecia que “ao Banco Central do Brasil compete executar as políticas necessárias para o cumprimento das metas”. Políticas, no plural. Na prática desses anos, a autoridade monetária se contenta em tabelar a taxa Selic, após intensa reflexão solitária.Banco Central estimulou a expansão do crédito ao reduzir o depósito compulsório das cadernetas de poupança Foto: André Dusek/EstadãoHá vários fatores que solapam a capacidade dos juros domarem a inflação, a começar, claro, pela política fiscal complacente. Mas não é só isso. A expansão do crédito, por exemplo, também pesa. O total de empréstimos do Sistema Financeiro Nacional superou R$ 7 trilhões em março, com crescimento de 9,6% em 12 meses. O crédito para as famílias (R$ 4,5 trilhões) cresceu 10,9%, levando o comprometimento da renda para 29,7%, recorde da série histórica. As concessões de empréstimos subiram 8,9% nos 12 meses até março de 2026, acima do crescimento nominal do PIB, estimado em 7,4%.Leia tambémAcreditar no ‘lado oculto’ da inflação pode ser tentador, mas reflete apenas uma atitude pueril Está ruim? Poderia ser pior. No meio desse mafuá, cotação do dólar está bem-comportadaFim da escala 6x1: Como a regra é de que vale tudo, tudo vale agora para aprovar redução da jornadaPUBLICIDADETangidos pelo governo, os bancos federais vêm liderando a expansão das carteiras de crédito, na direção contrária da contenção pretendida pelos juros altos. Nos últimos dois anos, até dezembro de 2025, as carteiras de crédito da Caixa Econômica e do Banco do Brasil cresceram, respectivamente, 23% e 26% (ante, por exemplo, 8,3% de crescimento das operações de crédito do Bradesco). O objetivo, claramente, é contrarrestar o efeito da política monetária, com o que se joga gasolina na fogueira dos juros. O mais difícil, no entanto, será fazer o marciano compreender que o próprio Banco Central estimulou a expansão do crédito ao reduzir o depósito compulsório das cadernetas de poupança, como fez em outubro de 2025, ou quando, mais recentemente, deixou de tirar proveito de uma possível contração da capacidade dos bancos emprestarem ao permitir o uso do compulsório para recapitalizar o FGC. Esquisitices. Definitivamente, o Brasil não é para marcianos.Publicidade
Opinião | Esquisitices: queda da Selic não surpreendeu ninguém, mas bem que poderia
Um economista marciano interessado na política monetária brasileira teria dificuldade em entender a redução da taxa de juros para 14,5%









