O descompasso entre a melhora de indicadores econômicos (como crescimento do PIB, baixo desemprego, aumento real da renda e inflação sob controle) nos últimos anos e a percepção da população sobre a administração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido um fator de desconforto entre integrantes do governo. A despeito do alívio recente entre auxiliares com a melhora nas últimas pesquisas de avaliação da gestão, os dados ainda mostram uma dificuldade de o Palácio do Planalto conseguir registrar uma avaliação positiva confortavelmente acima da desaprovação do governo Lula. As explicações para esse enigma vêm sendo levantadas por economistas, cientistas sociais e observadores de dentro e fora do governo. Nesse contexto, uma hipótese adicional tem sido discutida, inclusive na equipe econômica: a ideia de que o “consumo aspiracional”, os bens e serviços desejados pelas pessoas, tem crescido mais rapidamente que a renda delas, graças ao fenômeno da hiperconexão gerada pelas redes sociais e à expansão da economia digital. Esse quadro estaria motivando uma frustração em parcela relevante da população, além de induzir a um endividamento maior. Embora a teoria não seja exatamente nova na literatura econômica, o debate para o contexto recente do governo Lula tem crescido, sobretudo nos círculos econômicos do campo político da esquerda, no qual se insere a atual administração. — O crescimento da renda no Brasil não acompanha a velocidade das aspirações, gerando frustração — diz Laura Carvalho, professora de economia da USP e diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundations. Segundo ela, os salários estão subindo mais que os preços, mas talvez não o suficiente para satisfazer os desejos de consumo atuais: — Ao mesmo tempo em que salários crescem talvez mais do que preços, com ganho em poder de compra, as pessoas não estão estáticas naquilo que elas desejam ter. As aspirações também são dinâmicas — completa a economista, que em ensaio recente levou esse debate para além dos círculos acadêmicos. A lógica é que, ainda que sempre tenha havido o desejo da população em geral por bens e serviços consumidos pelas classes mais altas, esses padrões antes tinham referências mais locais (vizinhos, familiares ou mesmo o que aparecia nas novelas de televisão). Agora, com as redes sociais expondo globalmente os padrões de vida e oferecendo constantemente a possibilidade de aquisição imediata desses bens e experiências a poucos cliques, a “janela de aspiração” estaria se ampliando muito, criando uma pressão de consumo sem precedentes. — O problema não é a aspiração das pessoas. Tem um problema que é a desigualdade (social) em si, estruturalmente elevada no Brasil. E o outro é que a renda não está crescendo de forma tão expressiva, insuficiente para essas aspirações, sobretudo se consideramos a queda de renda real para a metade mais pobre da população desde a crise de 2015/16, que teve recuperação muito lenta. Só hoje está se recuperando o nível de renda de 2014 — diz Laura. Aspecto estrutural Dentro do governo, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda é onde tem se considerado mais seriamente a hipótese do “consumo aspiracional” como parte das explicações para a dicotomia entre os dados positivos da macroeconomia e a percepção das pessoas. A secretária de Política Econômica, Débora Freire, afirma que essa hipótese faz sentido como um aspecto estrutural por trás da relativa insatisfação de uma parcela das pessoas. — Talvez a cesta de consumo desejada esteja se alargando de forma mais rápida que a renda. É uma hipótese minha — afirma a secretária. — Hoje em dia, a cada série nova, a cada coisa nova, você tem que assinar... E com a massificação das redes, isso obviamente gera um impulso, aquela sensação de que, para você estar incluído, precisa ter acesso àquele bem, àquele serviço. Acho que isso traz uma percepção de que a sua renda não está dando. Embora relativize os dados de pesquisas sobre a percepção da população e veja um quadro mais favorável ao governo, o subsecretário de Política Fiscal da Fazenda, Rodrigo Toneto, reforça a leitura de que o fenômeno do “consumo aspiracional” ajudaria a explicar a insatisfação de uma parcela da população, mesmo em um contexto que ele vê como de melhora concreta e substancial na vida das pessoas. — A rede social cria de maneira artificial uma sociabilidade em que você é o único que está de fora. Seus amigos na rede social sempre estão bem, viajando, comprando um carro novo, colocando uma coisa nova na casa deles, enquanto você segue lá, na escala 6x1, pegando um ônibus lotado, tendo que sair correndo de trabalho para tirar o filho da creche, deixar o filho com uma cuidadora, ficar na fila do médico esperando. O algoritmo cria essa fantasia — analisa Toneto. Ele aponta que esse olhar para o outro sempre existiu, mas está sendo reforçado pelas redes sociais, em uma estrutura de acesso a cartão de crédito, comércio eletrônico e bets, que termina em maior dívida das famílias. Para Toneto, nesse contexto, é preciso não só ampliar a capacidade de crescimento econômico do país para além dos níveis atuais, como condição para restaurar o horizonte de ascensão social das pessoas, mas também pensar em uma agenda de investimentos em melhoria de serviços públicos para toda a população, ampliando a renda disponível nas famílias e reduzindo desigualdades. Pesquisador discorda Para o professor da Escola de Economia da FGV de São Paulo Leonardo Weller, porém, não há dados suficientes para se dizer que a tese sobre o “consumo aspiracional” está correta. Em sua avaliação, os elementos macroeconômicos ainda explicam a insatisfação de boa parte da população porque, mesmo com alguma melhora mais recente, o nível de renda das pessoas está basicamente no mesmo patamar de 12 anos atrás, antes da grave recessão entre 2014 e 2016. — Talvez daqui a alguns anos possamos ter (dados sobre essa hipótese), mas a gente não tem ainda. Meu ponto é que os indicadores positivos na economia não são nem tão fortes, principalmente do ponto de vista do salário real das pessoas, e, na verdade, são fracos dado o período severo e longo de crise econômica que nós tivemos — salienta Weller. — Ainda estamos vivendo as consequências daquela crise. Ainda não tivemos um novo ciclo virtuoso, longo e intenso de crescimento. Não temos isso e não estamos na perspectiva de ter.