O esvaziamento das negociações na carteira teórica do Ibovespa nesta segunda-feira (8) pode parecer apenas um dado corriqueiro - são dias de fluxo mais intenso e outros mais devagar. Porém a falta de apetite dos investidores por bolsa no Brasil é mais do que só é os reflexos das pressões no cenário macroeconômico e, conforme avançam, seguem empurrando o índice mais abaixo dos 170 mil pontos. O início de semana com um mercado desabitado pode ser um indicador de dias traiçoeiros para o investidor de renda variável no Brasil. E o quadro ainda pode se agravar nos próximos dias. O Ibovespa cedeu 0,2% hoje e parou nos 168.669 pontos, renovando a mínima desde 20 de janeiro. No mês, acumula perdas de quase 3%. No ano, os ganhos da carteira teórica saíram de mais de 23% no auge (em 14 de abril) para 4,7% agora. O mercado brasileiro foi combalido pelos fundamentos macroeconômicos (que hoje jogam contra a alocação em ativos locais, especialmente em renda variável) e agora a bolsa opera com tanque vazio. Desde que o capital estrangeiro passou a desfazer as posições em ações daqui, tem sido difícil para o índice cravar uma sessão no campo positivo. Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 50 desvalorizaram hoje. Desde o recorde perto dos 200 mil pontos, em meados de abril, a direção do fluxo de dólares mudou. De lá para cá, os gringos tiraram quase R$ 30 bilhões mais do que aportaram no mercado à vista de ações do Brasil. Só que a situação pode piorar nesta semana, em que o maior IPO da história, o da SpaceX, acontecerá em Nova York. O fortalecimento das teses de tecnologia no exterior afasta a bolsa brasileira do radar estrangeiro, e esse esvaziamento torna os ativos especialmente vulnerável aos solavancos. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 15,2 bilhões hoje, 17% abaixo da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,3 bilhões. Para onde foi o dinheiro que estava aqui O dólar à vista avançou 0,45% hoje, a R$ 5,18. No mês, está com alta de 2,7% em relação ao real. No ano até aqui, recuou 5,6% no mercado de câmbio local. São quase oito semanas seguidas de saída líquida do mercado de ações no Brasil. Esse dinheiro está voltando para as bolsas dos EUA, onde uma combinação de juros mais altos e o maior evento de captação da história (o IPO da SpaceX na sexta-feira, mirando arrecadar US$ 75 bilhões) está funcionando como um aspirador de liquidez global. Acontece que não é só o estrangeiro. O investidor doméstico institucional, que costuma dar suporte em momentos de saída massiva de dólares da bolsa, também está mais cauteloso. A questão é que a curva de juros futuros no Brasil mudou junto com o cenário, e agora já é majoritário no mercado financeiro o entendimento de que a Selic deve encerrar o ano acima dos 14%. Há até quem diga que os cortes nos juros se encerram na reunião do Copom em junho. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,39% para 14,47% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,65% para 14,77% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,64% a 14,69% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Nesse cenário, por que voltar à bolsa? O resultado dessa combinação de baixa liquidez e juros mais altos (sob o risco de o Federal Reserve, o banco central americano, subir suas taxas neste ano) cria um mercado que opera no automático e no modo economia de energia. Isso cria um ambiente de fragilidade dos preços, em que um movimento de compra ou de venda de tamanho médio pode criar uma distorção grande. O Ibovespa não está em queda livre, mas está sangrando em câmera lenta, com o volume cada vez menor. Para quem está em renda variável, a informação mais relevante nos próximos dias não é a cotação dos ativos, mas o volume movimentado por eles. Quando o mercado cai com volume alto, geralmente há compradores dispostos do outro lado. Quando cai com volume baixo, significa que quem quer vender não está encontrando contraparte disposta a pagar preço cheio. E é aí que os movimentos podem se acelerar de forma brusca e sem aviso. O Ibovespa está muito próximo do suporte técnico de 166 mil pontos, que analistas acompanham como último piso relevante para o índice. Se esse nível for testado em um dia de liquidez fina - digamos, na quarta após uma inflação americana acima do esperado -, o risco de uma queda acentuada e pontual é real, mesmo que os fundamentos da economia brasileira não tenham mudado. Para quem já está posicionado, não é necessariamente hora de sair, mas sim de calibrar a expectativa de que a volatilidade pode aumentar abruptamente nesta semana, e que os movimentos de preço podem ser exagerados em relação à realidade. Afinal, o tanque vai continuar operando com pouco combustível por mais um tempo.
Ibovespa segue enfraquecido e sob pressão no início de uma semana traiçoeira na bolsa
Saldo do Dia: Baixa liquidez acende alerta para o aumento da volatilidade no mercado. E a situação pode piorar conforme as ações competem com juros mais altos e as promessas grandiosas da SpaceX











