Mesmo após os escritórios e estúdios fecharem no Edifício Fernão Dias, no centro histórico de São Paulo, um time de ascensoristas permanece de plantão até a madrugada. A missão é simples: levar clientes do térreo ao 22º andar, onde funciona a balada Ephigenia. Em um cenário que tem se tornado cada vez mais comum, a cena ilustra uma transformação da noite paulistana: as festas deixaram os galpões e imóveis térreos para ocupar os andares mais altos da cidade. Se no passado a cidade ficou conhecida pelo fluxo de pessoas e eventos que tomava as ruas da capital, como ocorria na Rua Augusta e na Praça Roosevelt, atualmente a cidade vive um movimento de "verticalização" da vida noturna. Exemplos recentes incluem edifícios históricos da cidade, como o Martinelli, primeiro arranha-céu da capital que ganhou uma balada em seu 25º andar; o bar Matiz, que opera no 11º andar do Edifício Carlos Rusca; e o Iccarus, o mais recente deles, lançado oficialmente ao público este ano e instalado no 43º andar do Mirante do Vale. Do topo de um desses edifícios, é possível avistar o outro. A decisão de levar as festas para o alto dos prédios passa por uma série de fatores. Há questões relacionadas à segurança, por se tratar de ambientes mais controlados; o diferencial de oferecer uma vista panorâmica da cidade; e um dos fatores mais relevantes para o setor: os impactos da Lei do PSIU. A legislação, que fiscaliza a poluição sonora em locais de uso não residencial, tem se tornado uma preocupação constante para estabelecimentos voltados ao público da madrugada. As multas podem variar de R$ 12 mil a R$ 36 mil. Somente no primeiro semestre deste ano, de acordo com dados da Prefeitura de São Paulo, houve 12.848 solicitações de acionamento do programa. O número é 18% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 10.901 ocorrências. As reclamações estão espalhadas por toda a cidade, mas se concentram principalmente em bairros como Consolação, Pinheiros, Liberdade e República, regiões tradicionalmente associadas à vida noturna. Nesse cenário, em que foi preciso subir para continuar funcionando madrugada adentro, o empresário Lucas Amorim, sócio da Ephigenia e da Iccarus, explica que a Ephigenia precisou passar por uma série de adaptações acústicas para atravessar a noite. No sistema conhecido como Box in Box (caixa dentro de caixa), o isolamento sonoro da casa conta com piso flutuante apoiado sobre mantas acústicas, paredes duplas e teto suspenso. Mesmo com os investimentos, o empresário critica a ausência de uma política urbana voltada à convivência entre moradia e entretenimento. — A questão do PSIU envolve um problema um pouco mais profundo, que é talvez a falta de um plano diretor mais bem definido. São Paulo tem uma vida noturna incrível, comparada à de várias cidades do mundo. Muitas vezes a gente chega a uma região degradada, consegue revitalizá-la e, depois, começam a surgir prédios ao redor. Em muitos casos, as construtoras não instalam sequer janelas acústicas, mesmo sabendo que ali já existia um estabelecimento que gera mais barulho — afirmou. Ingressos para casas instaladas nos andares mais altos da cidade variam de R$ 25 a mais de R$ 120 — Foto: Edilson Dantas Se para os empresários a mudança atende a questões operacionais e regulatórias, para parte do público o principal atrativo continua sendo a vista. O analista de sistemas Lucas Bresanil, de 26 anos, morador de Bauru, estava na Ephigenia na última quinta-feira e planejava seguir a noite em outros endereços elevados da capital, incluindo a Iccarus e o Martinelli. — Eu sou do interior e lá não existe essa quantidade de prédios. Acho incrível olhar a cidade de cima, ver toda essa paisagem iluminada. É uma experiência diferente. Você pode estar em uma balada comum, mas, quando está em um arranha-céu, existe essa sensação de contemplar a cidade — disse. A experiência, porém, tem seu preço. Dependendo da festa, os ingressos para casas instaladas nos andares mais altos da cidade variam de R$ 25 a mais de R$ 120. Enquanto a reportagem deixava a balada na última quarta-feira, um grupo de amigos parados na entrada questionou e valia gastar R$360 (um ingresso para casa) para aproveitar o restante da noite. Endurecimento A tendência de ocupar os céus da cidade avança justamente no momento em que a Prefeitura de São Paulo busca endurecer as regras de fiscalização do ruído urbano. Encaminhado à Câmara Municipal no mês passado, um projeto de lei amplia os poderes do Programa de Silêncio Urbano (PSIU) e cria novos mecanismos de fiscalização. A proposta prevê o fechamento imediato de estabelecimentos envolvidos em atividades ilícitas, amplia a fiscalização para imóveis residenciais, cria blitz ostensivas do PSIU e estabelece regras para obras com barulho excessivo, especialmente durante a noite. Entre os principais pontos está a possibilidade de interdição imediata de estabelecimentos flagrados em situações relacionadas à criminalidade ou a contravenções, como exploração de máquinas caça-níqueis ou venda de bebidas sem nota fiscal. Pela proposta, a interdição poderá ocorrer a partir da constatação da Guarda Civil Metropolitana ou de autoridades policiais. O projeto ainda será analisado pelo plenário da Câmara Municipal.
Do galpão ao arranha-céu: por que as baladas estão se verticalizando em São Paulo
Fenômeno impulsionado por mudanças urbanas e pela fiscalização do PSIU leva festas e bares a ocuparem edifícios históricos e arranha-céus no centro da cidade.
Casas noturnas de São Paulo migraram para arranha-céus (Ephigenia 22º, Iccarus 43º) pela Lei do PSIU (multas até R$ 36 mil); denúncias +18% no 1º semestre (12.848 casos). Regulação urbana força investimento em soluções acústicas avançadas (Box in Box); ilustra como políticas públicas redirecionam decisões operacionais e infraestruturais de negócios urbanos.













