Na música "Espaço", Vitor Ramil canta sobre um ambiente inóspito —"quarto de não dormir/ sala de não estar/ porta de não abrir/ pátio de sufocar", dizem os versos iniciais da letra. A imagem do desconforto, de uma casa que não é lar, tem bastante a ver com a exposição de Thix, agora em cartaz na galeria paulistana Casa Triângulo.

Na mostra "Quarto de Não Dormir, Sala de Não Estar", a artista exibe pinturas, objetos e instalações sobre a beleza e a dureza de seu processo de transição —antes um homem gay, ela vem assumindo, nos últimos anos, a identidade de mulher trans.

Por um lado, os trabalhos são visualmente sedutores. Sua formação como artista em Florença e em Barcelona, calcada na pintura acadêmica e no barroco, traz para seus retratos e naturezas-mortas altíssima carga dramática, criada a partir de meticuloso uso das tintas a óleo e da técnica da luz e das sombras, o claro-escuro de Caravaggio.

Por outro, o visitante sente o sofrimento pelo qual a artista parece passar no complexo processo de desconstrução e posterior reconstrução de seu corpo e sua identidade. Num dos quadros, ela aparece com o rosto enfaixado e os arredores dos olhos inchados, um retrato do pós-operatório de um conjunto de cirurgias ao qual se submeteu para deixar a face com traços femininos.