O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a conclusão de uma investigação comercial que poderá resultar na aplicação de tarifas de 25% sobre parte dos produtos brasileiros gerou uma reação predominantemente negativa ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas redes sociais, segundo levantamento divulgado pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados. A pesquisa aponta que 78% das publicações sobre a possível tarifa foram críticas a Flávio, enquanto 12% foram favoráveis. Outros 10% dos conteúdos analisados tiveram caráter neutro ou apenas informativo. A medida foi anunciada uma semana após Flávio visitar Trump na Casa Branca. Além disso, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, já havia articulado no ano passado para que Washington taxasse produtos brasileiros como forma de pressão contra o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que acabou condenando o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Esses dois pontos foram explorados por opositores do presidenciável do PL, que negou ter defendido as tarifas e afirmou que pediu em encontros com autoridades americanas que o Brasil não fosse taxado. O estudo da Nexus avaliou, de forma amostral, cerca de 34 mil menções em português publicadas no X, Facebook e Instagram entre terça-feira (2), quando o governo Trump anunciou a medida, e quarta-feira (3), até o meio-dia. Excluídas as publicações neutras e considerando apenas os conteúdos opinativos, o conteúdo crítico a Flávio Bolsonaro sobe para 87%, enquanto as manifestações favoráveis representam 13%. A amostra foi construída por meio de seleção aleatória de conteúdos, buscando contemplar desde perfis de grande alcance até usuários comuns. Entre os discursos críticos, predominou a narrativa de que o senador teria responsabilidade política pela iniciativa americana após seu recente encontro com Trump. Termos como “Tariflávio”, “Flávio Taxadinha” e “BolsoMaster” estiveram entre os mais compartilhados. Também ganharam espaço mensagens em defesa do Pix, além de publicações que classificavam integrantes da família Bolsonaro como “inimigos do Brasil” ou “traidores da pátria”. Já entre os conteúdos favoráveis ao senador, usuários destacaram uma carta enviada por Flávio ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que as tarifas não fossem implementadas. Nessas manifestações, a responsabilidade pela crise é atribuída ao governo Lula, ao STF e à condução diplomática brasileira. Tema gerou 8 milhões de interações Segundo a Nexus, o tema gerou mais de 8 milhões de interações (entre curtidas, comentários e compartilhamentos) no X, Instagram e Facebook durante o período analisado. Para o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, a intensidade da repercussão lembra o ambiente observado durante o tarifaço anunciado pelos EUA no ano passado. “Como a gente já está no ambiente eleitoral, apesar de ainda faltar alguns meses para a eleição, tanto o presidente Lula quanto o senador Flávio falaram muito sobre esse assunto e publicaram bastante sobre ele. Isso gerou de fato um grande buzz nas redes sociais”, afirmou. “Das repercussões que a gente costuma acompanhar, essa foi uma bastante forte.” Na avaliação do pesquisador, a reação atual reúne características que costumam gerar forte engajamento político. “Qualquer tema que possa ser associado à soberania nacional, interferência estrangeira ou disputa entre os dois campos políticos tende a gerar forte engajamento”, explicou. Tokarski afirma que uma das razões para a predominância das críticas a Flávio está na forma como o debate foi absorvido pela população. Ele cita que o “brasileiro médio talvez não compreenda todos os detalhes técnicos de uma disputa comercial ou de um tarifaço, mas entende muito bem as narrativas ligadas à defesa do país e à ideia do ‘nós contra eles’”. Para Tokarski, a diferença entre os dois campos políticos também apareceu na velocidade de reação. “Entre os críticos de Flávio, a mobilização foi muito mais forte e aparentemente mais organizada. Eles rapidamente criaram expressões como ‘Tariflávio’, que ganhou grande repercussão nas redes”, disse. Na avaliação dele, os opositores do senador também conseguiram construir uma narrativa mais simples e facilmente compartilhável, enquanto a defesa apresentou “argumentos mais dispersos”. Pix virou símbolo da disputa Outro elemento apontado por Tokarski foi a centralidade do Pix no debate. Segundo ele, a ampla aceitação do sistema de pagamentos ajudou a impulsionar as críticas ao senador. “Qualquer narrativa de defesa do Pix tende a gerar identificação. Não por acaso, o termo aparece com destaque na nuvem de palavras das críticas ao Flávio”, disse. A disputa em torno do sistema de pagamentos instantâneos também ganhou destaque entre os dois políticos. Na terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exibiu um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil” durante um evento público. Já nesta quarta-feira, Flávio respondeu com um cartaz semelhante, mas com a mensagem “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”, em referência ao seu pai e ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na avaliação de Tokarski, a reação negativa ao senador também foi favorecida pelo momento em que o episódio ocorreu. Dias antes, a agenda política estava concentrada na decisão anunciada pelo governo americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, tema que poderia beneficiar eleitoralmente Flávio Bolsonaro por reforçar o debate sobre segurança pública. “A segurança pública é uma preocupação central para os brasileiros e tinha potencial para favorecer o Flávio. A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas poderia beneficiar politicamente o senador”, afirmou. Segundo ele, a discussão sobre o tarifaço alterou rapidamente o foco do debate público. “Hoje fala-se muito mais das tarifas do que da questão do PCC e do Comando Vermelho. Então é possível dizer que o novo episódio reduziu ou interrompeu uma onda potencialmente positiva para o Flávio e a substituiu por um debate que, neste momento, parece mais favorável ao governo”, disse. Efeito eleitoral incerto Apesar do cenário identificado nas redes sociais, Tokarski afirma que ainda é cedo para concluir se o episódio terá impacto eleitoral efetivo sobre a disputa presidencial. “Tudo depende dos próximos passos de Trump. Se a tarifa será implementada ou não, quais setores serão atingidos e como os atores políticos vão reagir a partir daí. Ainda existem muitos desdobramentos pela frente.”, concluiu. A definição sobre a proposta de tarifa de 25% deverá ocorrer no dia 15 de julho, após a conclusão das negociações entre Washington e Brasília. Já em relação a outra investigação dos EUA finalizada hoje que pode resultar em outra tarifa de 12,5% ao Brasil e outros 59 países ainda precisará passar por consulta pública e revisão, à partir do dia 7 de julho.
Possível tarifa de Trump gera efeito negativo a Flávio Bolsonaro nas redes, aponta Nexus
Levantamento analisou cerca de 34 mil menções entre terça-feira (2) e quarta-feira (3) até ao meio-dia













