Dois casos envolvendo o uso de inteligência artificial estão sacudindo o mundo da literatura. Quem tem razão? Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura em 2018 — Foto: Maciek Nabrdalik / The New York Times O mundo da literatura anda em polvorosa, sacudido por dois fatos completamente diferentes, mas unidos por um denominador comum que apavora as áreas criativas. O primeiro foi a acusação de que o conto vencedor do Commonwealth Short Story Prize de 2026 teria sido escrito por IA; o segundo foi a declaração de Olga Tokarczuk, autora de “Sobre os ossos dos mortos” e vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018, de que sim, usa inteligência artificial e, inclusive, gosta muito. O conto é “The serpent in the grove”, a serpente no mato, de Jamir Nazir, escritor de Trinidad e Tobago. Quando o texto foi publicado pela revista Granta, alguns leitores desconfiaram e escreveram indignados para a redação. Eu chequei com o Pangram, a ferramenta de detecção de IA que eles usaram, e o resultado foi categórico: para o Pangram, 100% IA. O detalhe interessante é que humanos precisam da IA para determinar o que é e o que não é humano; o júri e os editores da revista, todos (im)perfeitamente humanos, não se mostraram capazes de distinguir. Já Olga Tokarczuk participava de um evento em Poznan, na Polônia, quando confidenciou que tinha pagado uma assinatura premium de IA, e que ainda estava atônita diante da forma como ela amplia os nossos horizontes e aprofunda a reflexão criativa. “Volta e meia eu jogo uma ideia para a máquina analisar: ‘Querida, como podemos desenvolver isso aqui de um jeito bonito?’ Mesmo sabendo das alucinações e dos erros factuais, preciso admitir que na ficção a IA é um recurso de proporções extraordinárias”, disse Tokarczuk. “Ao mesmo tempo, meu coração dói pelo fim da literatura tradicional, escrita ao longo de meses de solidão, uma obra de vida construída na mente de um único indivíduo plenamente consciente. Lamento por Balzac, Cioran e o inimitável Nabokov, porque, apesar de todo o meu entusiasmo, não acredito que qualquer robô venha a ser capaz, algum dia, de se expressar de maneira tão requintada." O mundo da literatura, aquele do começo desta história, perdeu o chão. Houve gente sugerindo que o Nobel de Tokarczuk fosse cassado, mais ou menos como acontece com um campeão olímpico quando se descobre que estava dopado. Acho que o primeiro caso é emblemático, e talvez seja o primeiro e o último do seu gênero. Não porque ninguém mais vai usar IA, mas porque, em breve, nem as IAs conseguirão separar uma coisa da outra. Continuarão existindo apenas bons e maus textos, diferentes entre si porque, por trás deles, existirão bons e maus escritores. Olga Tokarczuk apenas verbalizou um fato comum. Ainda há quem escreva a caneta tinteiro num quarto todo seu, mas a tendência é usarmos a IA cada vez mais — ela é uma ferramenta poderosa demais para ser ignorada. Em “Fedro”, um dos diálogos mais famosos de Platão, Sócrates argumenta que a escrita destruirá a memória e enfraquecerá o conhecimento verdadeiro. Para ele, o conhecimento só existia no diálogo vivo entre mentes, não no texto que não pensa, não responde e não muda nunca. Sócrates não deixou nada escrito; ele só existe para nós por causa de Platão, Xenofonte e Aristófanes, que escreviam. Uma coisa é escrever por IA, outra é escrever com IA. Tokarczuk parece saber a diferença; Jamir Nazir, aparentemente, não.