O ChatGPT veio ao mundo em 2022, no mesmo ano em que Olga Tokarczuk publicou "Terra de Empusas" na Polônia. O livro chega agora ao Brasil em meio à polêmica em que a ganhadora do Nobel de Literatura se envolveu ao dizer em um evento que usou recursos de inteligência artificial ao escrever o seu romance mais recente, ainda não lançado.

"Terra de Empusas", assim, não teria nada a ver com o quiproquó. Incomodado ao terminar a leitura da obra, contudo, não fui capaz de não relacionar as coisas. Para justificar esse desconforto, preciso falar um pouco sobre o texto.

O livro, traduzido para o português por Luiz Henrique Budant, narra a história de um estudante de engenharia polonês que, em 1913, se hospeda em um sanatório para tratar uma tuberculose em estágio inicial. Ali convive com outros doentes, com os quais passeia pelas florestas das montanhas locais, bebe licores "medicinais" e discute (ou finge discutir) variados assuntos em uma Europa às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial.

A referência mais evidente da obra é "A Montanha Mágica", que Thomas Mann começou a escrever em 1912 e publicou só em 1924. O escritor alemão testemunhou a turbulência e as contradições de seu país e do continente e, em "tempo real", deu forma literária elevada a algumas das crises que levaram a situação a tal grau de ruptura.