Os cortes nos juros no Brasil se tornaram uma pauta desconfortável antes mesmo de começarem. No início de março, quando estourou o conflito entre Estados Unidos e Irã no Golfo Pérsico, o mercado já havia ajustado suas previsões para trabalhar com alívios de menor intensidade. Nesses últimos três meses, esse ciclo de quedas da Selic também foi sendo encurtado. Só que a porrada foi mais forte nesta quarta (3), que consolidou a convergência de visão de investidores e economistas de grandes instituições para um cenário de pausa dos alívios logo ali. Diante de uma renda fixa mais atraente, o Ibovespa desabou 2,22% hoje, parando nos 170 mil pontos, o menor nível desde 20 de janeiro. Na semana e no mês, virou o saldo para perdas de 2%. No ano, os ganhos da carteira teórica saíram de 23% no auge (em meados de abril) para 5,7%. Como as más notícias estão de mãos dadas, o gatilho para a deterioração do cenário foi puxado hoje - de novo - pelo governo americano. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,17% para 14,30% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,06% para 14,41% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,11% a 14,44% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Foi a pancada mais forte nos mercados nesta sessão: um novo tarifaço. O presidente dos EUA anunciou hoje pela manhã a proposta de tarifas adicionais de até 12,5% ao Brasil, à União Europeia e a outros 58 países, sob alegação de falha no combate à importação de bens produzidos com trabalho forçado. A nova tarifa sobretaxa exportações como a de siderúrgicas, exatamente as empresas cuja tese de valor passa pela venda para mercados desenvolvidos. As novas tarifas americanas sobre aço e derivados fecham uma porta que o mercado ainda mantinha entreaberta na tese de Vale e das siderúrgicas, por isso, essas ações foram severamente penalizadas hoje. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 71 desvalorizaram hoje. Além do agravamento do ambiente global para investimentos com a recuperação de uma pauta que vinha adormecida, o segundo efeito desse tarifaço é a balança de riscos mais pesada para o Brasil. Se ontem o mercado passou praticamente incólume graças à extensa lista de exceções da Seção 301, desta vez o recado é que os EUA estão mesmo dispostos a ressuscitar a agenda, o que traz mais imprevisibilidade para o ambiente de exportações e pode pressionar a inflação globalmente. O dólar à vista avançou 1,15% hoje, a R$ 5,07. Na semana e no mês, está com alta de 0,5% em relação ao real. No ano até aqui, recuou 7,7% no mercado de câmbio local. Em meio à escalada das tensões e das expectativas para a inflação, o mercado passou a entender que é hora de abandonar as discussões sobre os cortes na Selic e passar a olhar para o cenário de pausa deste ciclo. E ele pode não estar muito distante. O BTG Pactual elevou a expectativa para a taxa Selic terminal em de 13% para 14,25% em 2026, e de 10,50% para 12,50% em 2027. A queda de 0,25 ponto da taxa esperada pelo banco está baseada apenas na comunicação recente da autoridade monetária. Não fosse isso, a a equipe de macroeconomia do BTG, comandada pelo chefe de pesquisa econômica e ex-diretor do BC Tiago Berriel, enxerga que já era chegada a hora de o Banco Central interromper as quedas dos juros na reunião de junho. E Selic mais alta por mais tempo comprime diretamente os lucros corporativos, especialmente os das empresas mais ligadas à economia local - que passariam despercebidas pelo pessimismo com o tarifaço. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 20,8 bilhões hoje, 14% acima da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,3 bilhões. Até que ponto o Ibovespa pode descer? O Ibovespa nos 170 mil pontos além do número. O índice operou durante boa parte deste ano com suporte técnico relevante na região dos 172 mil e 173 mil 0 linha que vinha segurando os fluxos compradores estrangeiros. A véspera do feriado de Corpus Christi pressionou a liquidez e amplificou os movimentos do mercado. O pregão de véspera de feriado é o pior ambiente para suportar uma notícia de tarifa, já que qualquer pressão vendedora encontra menos ordens de compra do outro lado, e o preço cai mais do que cairia num pregão normal. O movimento técnico do mercado hoje, portanto, foi o amplificador do pessimismo generalizado. No gráfico semanal, o Ibovespa perdeu a estrutura de topos e fundos ascendentes após romper o importante suporte dos 175 mil pontos, aponta a análise da Genial Investimentos. Assim, os analistas técnicos estão monitorando, em ordem de gravidade crescente os 170 mil pontos, o piso imediato do índice, que está sendo testado agora. Porém o mercado coloca em risco a região dos 170 mil pontos, que passa a funcionar como referência importante para os próximos pregões. O fechamento de hoje na faixa inferior desse degrau significa que esse suporte não foi perdido, mas está sendo mordido. Se, no próximo pregão (numa sexta de emenda de feriado), a carteira abrir e romper esse nível com volume, o técnico lê como sinal de aceleração vendedora, de acordo com a análise da Genial Investimentos. Abaixo dos 170 mil pontos, os próximos suportes aparecem em 165 mil e 154.055 pontos. Isso representa uma queda adicional de cerca de 3% a partir do fechamento de hoje. Para retomar força compradora, será necessário o Ibovespa recuperar inicialmente a faixa das médias móveis, entre 179 mil e 182.360 pontos, 9 mil pontos acima do patamar atual. Não se trata, portanto, de uma virada de pregão, mas de uma reconstrução que levaria semanas de fluxo positivo consistente. A distância entre esses pontos é um resumo de tudo que aconteceu ao mercado do Brasil (e do mundo) nos últimos quatro meses.